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segunda-feira, 21 de junho de 2021

Insetos introduzidos na Madeira: escaravelhos problemáticos

O número total de espécies e subespécies endémicas dos arquipélagos da Madeira e Selvagens é de 1419 taxa (1286 espécies e 182 subespécies), correspondendo a 19% da diversidade total. O Reino Animal é o grupo com maior número de espécies e subespécies endémicas, nomeadamente os moluscos (210) e os artrópodes (979), compreendendo cerca de 84% de todos os endemismos da Madeira e Selvagens. A proporção de endemismo nos moluscos (71%) é notável. As plantas vasculares têm 154 espécies e subespécies endémicas, correspondendo a 13% da diversidade total das plantas. Os restantes grupos taxonómicos apresentam menor número de espécies e subespécies endémicas: 36 fungos (correspondendo a 5% da diversidade total de fungos), 12 líquenes (2%), 11 briófitos (2%) e 15 vertebrados (24%).

A ordem Coleoptera possui o maior número de espécies: cerca de 350 mil! É, portanto, o grupo animal que possui maior diversidade e também apresenta grande variedade morfológica. Uma característica que teria contribuído para o sucesso da ordem seriam os élitros, protegendo o par de asas com função de voo quando este não está em uso, e permitindo que estes animais ocupassem os mais diversos tipos de habitat.

A Ilha da Madeira tem inúmeras espécies introduzidas, sendo muitas delas insetos. Após a checklist da fauna e flora dos arquipélagos da Madeira e Selvagens, de Borges et al., 2008, já foram encontradas na Madeira muitas outras novas espécies, algumas já tendo causado alguns prejuízos a nível das espécies hospedeiras vegetais. Muitos dos escaravelhos introduzidos são das famílias dos curculionídeos e dos cerambicídeos, havendo também ocorrências de alguns buprestídeos, mas ainda sem efeitos conhecidos no ecossistema.


Escaravelho das flores (Oxythyrea funesta)

Família: Cetoniidae

O escaravelho das flores observei pela primeira vez em 2017 no Monte, numa inflorescência de copo-de-leite (Zantedeschia aethiopica). Desde então, tenho notado que está a aumentar a sua distribuição por toda a ilha, alimentando-se de inflorescências de asteráceas, rosáceas e boragináceas, tal como o Echium candicans, e muitas outras. Notei que quando estão em maior número são capazes de estragar completamente as flores, o que pode tornar-se preocupante a longo prazo.

A chegada desta espécie pode não só estar relacionada com as alterações climáticas, particularmente com o aumento das temperaturas, mas também com a importação de flores de corte e plantas envasadas onde estes insetos podem ser transportados, contribuindo para o aumento das populações locais.

Oxythyrea funesta em diversas inflorescências.


Escaravelho-das-palmeiras (Rhynchophorus ferrugineus)

Família: Curculionidae

Esta espécie originária da Ásia foi assinalada pela primeira vez em Portugal na região do Algarve, em finais de agosto de 2007. Afeta principalmente a Palmeira-das-Canárias (Phoenix canariensis) e a Tamareira (Phoenix dactylifera), e em menor grau, espécies do género Washingtonia. O escaravelho das palmeiras surgiu na Madeira e Porto Santo por volta de 2009. Este é dos maiores e mais vistosos insetos que temos na Madeira. No entanto, muitas palmeiras morreram devido às larvas deste escaravelho que se alimentam no interior do tronco, tendo-se realizado combate biológico contra este inseto utilizando armadilhas com feromonas para a captura de adultos, quer para monitorização quer para captura em massa. Deste modo é possível atrair os adultos para o centro dos focos, evitando assim a sua dispersão; monitorizar as populações, permitindo determinar o melhor momento de aplicação dos tratamentos fitossanitários; detetar a sua presença em zonas onde ainda não tenha sido assinalado e realizar a captura massiva como medida de combate. Portanto, em vários jardins da Madeira estão continuamente a ser utilizados os métodos de controle por feromonas, o que permite ainda haver algumas palmeiras na ilha.

Espanha está muito afetada por esta praga, e está a ser investigada uma outra arma biológica que poderá ser utilizada neste combate. Os francelhos/peneireiros-vulgares (Falco tinnunculus) da região estão a alimentar-se quase exclusivamente do escaravelho vermelho. Nesta procura constante de inimigos naturais deste inseto, a esperança parece estar agora ligada ao desenvolvimento de estirpes de fungos entomopatológicos que parasitam os escaravelhos.

Os sintomas apresentados pelas árvores devem-se à atividade alimentar das larvas nos tecidos do hospedeiro, e só podem ser visíveis após três meses até mais de um ano, desde o início da infestação. Apesar de ter destruído imensas palmeiras em Portugal, não se conhecem quaisquer impactos negativos em espécies autóctones ou em ecossistemas naturais, pelo que não pode ser para já considerada invasora.

Esta espécie prefere colonizar palmeiras já enfraquecidas, mas também é capaz de colonizar palmeiras saudáveis. As fêmeas saem das palmeiras já fecundadas, prontas a colonizar novas palmeiras. Podem ter quatro gerações por ano, pondo até centenas de ovos numa só postura.

Ciclo de vida de Rhynchophorus ferrugineus.
 

Gorgulho da Bananeira (Cosmopolites sordidus)

Família: Curculionidade

Este gorgulho é um inseto com impactos económicos referenciados em todo mundo, por causar elevados prejuízos que limitam o desenvolvimento vegetativo da bananeira.

Como este inseto tem atividade noturna e movimenta-se no interior das plantas, torna-se difícil observar a sua presença, podendo passar despercebido pelos produtores e assim atingir elevados níveis de infestação. Os adultos não provocam estragos na planta, sendo as larvas as responsáveis pelos prejuízos, uma vez que, quando se alimentam, abrem com a armadura bocal galerias no rizoma e na parte inferior do pseudocaule da planta. As galerias dificultam os movimentos de água e dos nutrientes, o que leva a um fraco desenvolvimento vegetativo da bananeira. A planta, mais frágil, tem dificuldade em emitir o cacho, que fica malformado e pequeno. O sistema radicular também fica pouco desenvolvido, o que facilita a queda da planta pela ação do vento.

A monitorização da população com armadilhas é indispensável para o controle deste inseto. A movimentação dos insetos é condicionada pela Sordidina, uma feromona de agregação, que é emitida pelos machos para atrair insetos de ambos os sexos para uma fonte de alimento.

 

Ciclo de vida de Cosmopolites sordidus.

Longicórnio-do-pinheiro (Monochamus galloprovincialis)

Família: Cerambycidae

É um escaravelho longicórnio, uma família muito diversa, existindo mais de 100 espécies em Portugal destes escaravelhos que se alimentam de plantas. Na Madeira estão descritas 20 espécies, sendo quase todas introduzidas à exceção de 4!

Os escaravelhos desta família reconhecem-se por terem as antenas muito compridas e compostas por segmentos também muito compridos. Neste caso, trata-se de uma espécie cujas larvas se alimentam da madeira do pinheiro. Infelizmente é também o vetor do nemátodo da madeira do pinheiro (Bursaphelenchus xylophilus), e por isso não muito querido dos produtores florestais. Este nemátodo de apenas 1mm de comprimento é o causador da Doença da Murchidão do Pinheiro. Estes vivem nos canais de resina e no xilema e, uma vez lá dentro, a sua alimentação pode bloquear rapidamente o movimento ascendente de líquidos, levando à morte da árvore.

 

Monochamus galloprovincialis.
Doença da Murchidão do Pinheiro.

Para além destes escaravelhos introduzidos, ocorrem muitas outras espécies de insetos que são prejudiciais para a agricultura na Madeira, tais como moscas, pulgões(afídeos), cochonilhas, e lagartas de lepidópteros tais como a lagarta da borboleta diurna Pieris rapae, e de alguns noctuídeos como Chrysodeixis calcites, Cornutiplusia sp., Autographa sp. e Diaphania sp., e também alguns geometrídeos. Há também algumas pragas de percevejos como o percevejo-do-abacateiro (Pseudacysta perseae) e a mosca-branca. A mosca-da-fruta (Ceratitis capitata) e a mosca-da-couve (Delia radicum) são também muito problemáticas. Podem ocorrer ainda doenças nas culturas causadas por vírus e fungos.

A agricultura e as aves têm uma relação de benefício mútuo. No entanto, os produtos agroquímicos trazem perigos para a saúde pública e perda de biodiversidade, contaminando as águas, os solos e toda a cadeia alimentar. Assim sendo, as aves são consideradas como reguladoras de pragas e de doenças, muito eficazes em campos agrícolas biológicos, sendo imperativo uma luta por uma agricultura compatível, uma agricultura que não comprometa a natureza.

As aves são bons indicadores do equilíbrio do ecossistema. A presença e a conservação de aves e morcegos, é, portanto, uma mais valia para os mais diversos habitats da Ilha da Madeira, sendo que, por serem insectívoros, ajudam no controle de pragas de insetos.


Melro-preto (Turdus merula) e campos agrícolas: uma relação de benefício mútuo.