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quarta-feira, 21 de julho de 2021

Prospeção de ninhos de cagarra

Equipa atual da SPEA Madeira

Utilização de um burrowscope para ver o interior do ninho.



Desde o início de julho de 2021, a nossa equipa SPEA Madeira tem ido ao campo prospetar ninhos de cagarra (Calonectris borealis)!
Numa colónia conhecida e isolada junto à costa, temos feito esforços para encontrar ninhos com indícios de ocupação, ou seja, com penas ou fezes, e ninhos ocupados com aves adultas (casal) e com ovo. Alguns ninhos estão em zonas de difícil acesso, e requerem o uso de um burrowscope para ver o interior do ninho por serem demasiado fundos.
Local da prospeção de ninhos de cagarra.

A cagarra é a ave marinha de maior porte e de maior população no arquipélago da Madeira. Na ilha da Madeira, possui pequenas colónias fragmentadas. Esta colónia escolhida tem vindo a ser estudada nos últimos anos. Em 2018 tinha 24 ninhos potenciais, dos quais 8 estavam ocupados. Este mês de julho, a nossa equipa encontrou mais de 30 ninhos potenciais, alguns com indícios de presença, e 10 ocupados e com ovo.

Ave adulta no ninho.

A cagarra faz o ninho em cavidades naturais, como fendas nas rochas ou sob amontoados de pedras, ou podem ser escavados no solo. Põem apenas um ovo, e ambos os progenitores cuidam da cria, fazendo muitas vezes longas viagens pelo mar, em busca de alimento. Apesar de viver mais de 30 anos, o facto de pôr apenas um ovo e de levarem tanto tempo a atingir a idade reprodutora faz com que a espécie seja muito vulnerável a ameaças como a predação por espécies invasoras, as capturas acidentais na pesca, a perda de habitat, caça ilegal e, claro, a poluição luminosa.



Régua, luvas e craveira: alguns dos materiais indispensáveis.
Pretendemos anilhar, recolher dados biométricos e instalar um GPS logger em cada ave adulta que tiver ovo. Dessa forma, em agosto, serão recolhidos os loggers pois os adultos regressarão de forma recorrente ao ninho para alimentar a cria, e reduz o risco de ser perdido o material. Os dados recolhidos dos loggers permitirão obter mais informação sobre o percurso que a cagarra faz ao longo da costa, desde o ninho ao mar e vice-versa, o que permite reconhecer os efeitos que a luz artificial noturna possa causar às aves marinhas.


Medição de ovo.



Os dados biométricos recolhidos são o peso da ave, o tamanho das asas, do bico e dos tarsos, utilizando uma régua para as asas e uma craveira. A ave é pesada dentro do saco utilizando uma balança portátil com um gancho. Nos ninhos acessíveis, também medimos a altura e largura do ovo. Os ninhos foram também medidos.




Este trabalho é no âmbito do projeto INTERREG MAC Energy Efficiency Laboratories (EELabs). A ilha da Madeira alberga o seu primeiro laboratório de poluição luminosa, o terceiro implementado no âmbito do projeto. Astrónomos do Instituto de Astrofísica de Canárias e técnicos da SPEA Madeira instalaram os primeiros fotómetros na zona Este da ilha da Madeira (Santa Cruz, Machico e Santana), cujos dados recolhidos, juntamente com o seguimento GPS de adultos de cagarra, vão permitir identificar as áreas mais problemáticas para as aves marinhas em relação à poluição luminosa na ilha, permitindo priorizar locais que necessitem de alterações na iluminação.

Retirada de um adulto do ninho utilizando as luvas e um saco.

Este projeto, que decorre na Madeira, Açores e Canárias, assenta no desenvolvimento e instalação de uma rede de fotómetros autónomos – pequenos aparelhos que vão mapear a poluição luminosa e medir o impacto da luz artificial noturna sobre a biodiversidade. Serão instalados trinta equipamentos na zona Este da Madeira, que se juntarão a mais de uma centena, já implementados nas ilhas de Gran Canaria, Tenerife e Corvo.
Um desses fotómetros será instalado no local da colónia de cagarras que estamos a prospetar.




Recolha de dados biométricos.

As aves marinhas, devido aos seus olhos sensíveis, ficam desorientadas e são vítimas de encadeamento ao saírem dos seus ninhos. Isso pode fazer com que colidam com infraestruturas, sejam atropeladas, se tornem presas de cães e gatos ou até morram de desidratação. Por esta razão, a SPEA relembra a importância da adoção de iluminação pública adequada, levando em consideração a eficiência energética, mas também o impacto na biodiversidade.




Este é o terceiro projeto na região dedicado exclusivamente à avaliação da poluição luminosa, após o projeto Mac 2014-2020 LuminAves (Poluição Luminosa e Conservação nos Arquipélagos da Macaronésia - Redução dos efeitos Nocivos da Luz artificial sobre as Populações de Aves Marinhas) e o projeto LIFE4Best Seabirds Macaronesian Sounds (SMS).