sexta-feira, 30 de julho de 2021

Ate já

Passaram-se 5 meses desde a minha chegada à SPEA. Lembro-me de cá ter chegado com vontade e determinação de ajudar, adquirir conhecimento, fazer amizades e ter uma oportunidade de descobrir mais sobre o mundo das aves. 

Trabalhar para o estudo e conservação das aves e seus habitats, promovendo um desenvolvimento que garanta a viabilidade a conservação do património natural, a sensibilização ambiental e a promoção de aves são alguns dos objetivos da SPEA, e tenho que confessar que foi uma das melhores experiência que tive nos últimos anos.

Durante 5 meses, integrei-me em vários projetos, onde ganhei competências e conhecimento relativos a identificação e caraterização das aves marinhas, apoiei e aprendi a usar metodologias de inventariação até então desconhecidas por mim, tornei-me mais critico e aprendi a analisar problemas ambientais, conheci novos lugares na ilha, e muito honestamente 5 meses pareceram muito pouco. 

Aqui vai em forma de balanço geral, os momentos que mais marcaram na passagem pela SPEA:

-No âmbito do projeto LIFE4BEST SMS:  Aprendi a ouvir Pintainhos, Patagarros, Roque-de-Castro, Cagarras. Aprendi a identificar e a observar magníficas aves marinhas com desafios incalculáveis.


-Vi aves marinhas vítimas de comportamento humano inadequado. O que enalteceu a importância de projetos como o OceanLit


-Juntei-me a dezenas de voluntário e juntos contamos as Mantas da Madeira.


-No programa de educação ambiental ouvi perguntas de crianças de quarto ano com brilho nos olhos e esperança no futuro.



-Juntamos esforços com voluntários e fomos capazes ajudar no controlo de invasoras, no âmbito do programa de educação ambiental


-Vi adultos, ovos e juvenis de cagarras nos seus ninhos no âmbito do projeto EELabs






-Percebi que os profissionais da SPEA têm na sua paixão a proteção de espécies e habitats e fazem-no todos os dias sem esperar por reconhecimento público. Uma vocalização de uma ave é do melhores Obrigado que podem receber.

Esta passagem pela SPEA tornou-me mais competente, mais profissional, e acima disso, tornou-me um melhor ser humano. E estas conquistas de competências intrapessoais podem até ser por mérito próprio, mas este mérito só acontece por ter estado rodeado por pessoas altamente competentes, excelentes profissionais, e seres humanos espetaculares. E é por este motivo Cátia, Elisa e Tiago que eu é que agradeço.


A SPEA Madeira ficou sem um estagiário, mas ganhou um aliado no combate pela proteção da natureza. A proteção das aves e seus habitats estão agora inseridas nas minhas lutas e sem querer, acabei por fazer da missão da SPEA também a minha missão.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Prospeção de ninhos de cagarra

Equipa atual da SPEA Madeira

Utilização de um burrowscope para ver o interior do ninho.



Desde o início de julho de 2021, a nossa equipa SPEA Madeira tem ido ao campo prospetar ninhos de cagarra (Calonectris borealis)!
Numa colónia conhecida e isolada junto à costa, temos feito esforços para encontrar ninhos com indícios de ocupação, ou seja, com penas ou fezes, e ninhos ocupados com aves adultas (casal) e com ovo. Alguns ninhos estão em zonas de difícil acesso, e requerem o uso de um burrowscope para ver o interior do ninho por serem demasiado fundos.
Local da prospeção de ninhos de cagarra.

A cagarra é a ave marinha de maior porte e de maior população no arquipélago da Madeira. Na ilha da Madeira, possui pequenas colónias fragmentadas. Esta colónia escolhida tem vindo a ser estudada nos últimos anos. Em 2018 tinha 24 ninhos potenciais, dos quais 8 estavam ocupados. Este mês de julho, a nossa equipa encontrou mais de 30 ninhos potenciais, alguns com indícios de presença, e 10 ocupados e com ovo.

Ave adulta no ninho.

A cagarra faz o ninho em cavidades naturais, como fendas nas rochas ou sob amontoados de pedras, ou podem ser escavados no solo. Põem apenas um ovo, e ambos os progenitores cuidam da cria, fazendo muitas vezes longas viagens pelo mar, em busca de alimento. Apesar de viver mais de 30 anos, o facto de pôr apenas um ovo e de levarem tanto tempo a atingir a idade reprodutora faz com que a espécie seja muito vulnerável a ameaças como a predação por espécies invasoras, as capturas acidentais na pesca, a perda de habitat, caça ilegal e, claro, a poluição luminosa.



Régua, luvas e craveira: alguns dos materiais indispensáveis.
Pretendemos anilhar, recolher dados biométricos e instalar um GPS logger em cada ave adulta que tiver ovo. Dessa forma, em agosto, serão recolhidos os loggers pois os adultos regressarão de forma recorrente ao ninho para alimentar a cria, e reduz o risco de ser perdido o material. Os dados recolhidos dos loggers permitirão obter mais informação sobre o percurso que a cagarra faz ao longo da costa, desde o ninho ao mar e vice-versa, o que permite reconhecer os efeitos que a luz artificial noturna possa causar às aves marinhas.


Medição de ovo.



Os dados biométricos recolhidos são o peso da ave, o tamanho das asas, do bico e dos tarsos, utilizando uma régua para as asas e uma craveira. A ave é pesada dentro do saco utilizando uma balança portátil com um gancho. Nos ninhos acessíveis, também medimos a altura e largura do ovo. Os ninhos foram também medidos.




Este trabalho é no âmbito do projeto INTERREG MAC Energy Efficiency Laboratories (EELabs). A ilha da Madeira alberga o seu primeiro laboratório de poluição luminosa, o terceiro implementado no âmbito do projeto. Astrónomos do Instituto de Astrofísica de Canárias e técnicos da SPEA Madeira instalaram os primeiros fotómetros na zona Este da ilha da Madeira (Santa Cruz, Machico e Santana), cujos dados recolhidos, juntamente com o seguimento GPS de adultos de cagarra, vão permitir identificar as áreas mais problemáticas para as aves marinhas em relação à poluição luminosa na ilha, permitindo priorizar locais que necessitem de alterações na iluminação.

Retirada de um adulto do ninho utilizando as luvas e um saco.

Este projeto, que decorre na Madeira, Açores e Canárias, assenta no desenvolvimento e instalação de uma rede de fotómetros autónomos – pequenos aparelhos que vão mapear a poluição luminosa e medir o impacto da luz artificial noturna sobre a biodiversidade. Serão instalados trinta equipamentos na zona Este da Madeira, que se juntarão a mais de uma centena, já implementados nas ilhas de Gran Canaria, Tenerife e Corvo.
Um desses fotómetros será instalado no local da colónia de cagarras que estamos a prospetar.




Recolha de dados biométricos.

As aves marinhas, devido aos seus olhos sensíveis, ficam desorientadas e são vítimas de encadeamento ao saírem dos seus ninhos. Isso pode fazer com que colidam com infraestruturas, sejam atropeladas, se tornem presas de cães e gatos ou até morram de desidratação. Por esta razão, a SPEA relembra a importância da adoção de iluminação pública adequada, levando em consideração a eficiência energética, mas também o impacto na biodiversidade.




Este é o terceiro projeto na região dedicado exclusivamente à avaliação da poluição luminosa, após o projeto Mac 2014-2020 LuminAves (Poluição Luminosa e Conservação nos Arquipélagos da Macaronésia - Redução dos efeitos Nocivos da Luz artificial sobre as Populações de Aves Marinhas) e o projeto LIFE4Best Seabirds Macaronesian Sounds (SMS).


sexta-feira, 16 de julho de 2021

EELabs

Recentemente recebemos na Madeira a visita de astrónomos vindos do Instituto de Astrofísica de Canárias. Esta visita tinha como principal objetivo a instalação de fotómetros (aparelhos que medem a intensidade da luz) no âmbito do projeto EELabs (Energy Efficiency Laboratories), projeto financiado pelo programa INTERREG MAC 2014-2020, e co-financiado pelo FEDER (Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional) da União Europeia. O Projeto é uma colaboração entre 5 parceiros da Região da Macaronésia:

-Instituto de Astrofísica de Canarias;

-Instituto tecnológico y de energias renovables;

-Universidade de Las Palmas de Gran Canaria;

-SPEA-Açores e

-SPEA-Madeira.

O objetivo do EELabs é a proteção e melhoria dos ecossistemas da Rede Natura 2000 da macaronésia através de infraestruturas ecológicas destinadas a minimizar a poluição luminosa e maximizar a eficiência energética das novas tecnologias de iluminação. Contamos que este laboratório de medição de contaminação luminosa permita adquirir conhecimento profundo sobre a iluminação e o impacto sobre os ecossistemas da macaronésia, em especial nas aves marinhas.

Os fotómetros são caixas com tamanho reduzido (cerca de 10 cm x10 cm) e de baixo custo , que mede de forma continua o brilho noturno e a nebulosidade zenital (direção vertical). Trabalham a energia solar, o que permite a captação de dados e informação de forma autónoma e sem precisar de fonte energética ou cobertura telefónica, isto possibilita a instalação dos fotómetros em lugares isolado.


Imagem: Fotómetros. Foto de Cátia Gouveia

Na Madeira a rede do fotómetros será instalada na zona Este da ilha, dada a sua importância desta área para a biodiversidade. 

O impacto da poluição luminosa afeta 30% dos vertebrados e 60 % dos invertebrados noturnos, que são muito sensíveis à luz e por isso ameaçados. As aves marinhas sendo o grupo animal mais ameaçado do Mundo e altamente prejudicados pela poluição luminosa, são alvo de estudo neste projeto que  permitirá perceber o impacto da luz artificial nas colonias, o comportamento das aves marinhas nas zonas com incidência de luz artificial e quantificar os impactos dessa incidência. 

A poluição luminosa é um problema que afeta a todos, e se for quantificada e reduzida, estaremos a beneficiar  em varias frentes. Beneficiarão as administrações Regionais e Locais que verão a conta da luz reduzida e com dispêndio mais baixo de energia, as populações locais que terão menos alterações naturais dos lugares onde residem e ainda a comunidade científica que poderá fazer melhor observações e apoiar na preservação do habitat animal e vegetal. 


segunda-feira, 5 de julho de 2021

Extinções de aves na Ilha da Madeira

Categorias da Lista Vermelha da UICN.

A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (UICN) é atualmente o sistema mais usado para classificar espécies segundo o seu risco de extinção. Esta lista é apelidada de “barômetro da vida”, pois é um rico sumário de informações sobre as ameaças às espécies, seus requisitos ecológicos, onde vivem e informações sobre ações de conservação que podem ser tomadas para reduzir seu risco de extinção. A categoria a que cada taxon pertence é analisada de acordo com o tamanho e tendência populacional ao longo do tempo, os tipos de habitats, os tipos de ameaças e a sua distribuição geográfica.

A BirdLife International é um dos principais grupos conselheiros no âmbito do Comité de Sobrevivência das Espécies, Species Survival Commission (SSC), responsável pela totalidade da classe Aves, que conta mais de 11,000 espécies. Segundo o site do UICN, há cerca de 14% de aves ameaçadas de apenas 28% de todas as espécies estudadas.

14% das espécies de aves do mundo (uma em cada oito) encontram-se ameaçadas!

No Arquipélago da Madeira, a freira-da-madeira (Pterodroma madeira) é considerada em perigo (EN), e a freira-do-bugio (Pterodroma deserta) está classificada como vulnerável (VU). O bis-bis e o pombo-trocaz/pombo-da-madeira estão ambos classificados como pouco preocupante (LC).

 


Bis-bis (Regulus madeirensis).
A intervenção humana tem influenciado marcadamente a ecologia dos ecossistemas insulares de variadas formas, sendo uma das influências mais profundas a extinção de numerosas espécies. Tal como se registou para outros grupos taxonómicos, o número de extinções de vertebrados registadas a partir do ano de 1600 tem sido mais assinalável em ilhas, com uma taxa de extinção que já atingiu os 95% para os répteis, 85% para as aves, e 58% para os mamíferos (Whittaker 1998).

Columba palumbus maderensis.
Sabia que na Madeira já se extinguiu uma subespécie endémica de pombo?

Columba palumbus maderensis, conhecido como pombo-torcaz-da-madeira, é uma subespécie endémica da Madeira. Esta foi descrita em 1904 por Tschusi, após ter sido enviado para este um espécime macho, colhido pelo Padre Ernesto Schmitz (1845-1922) a 31/01/1904. Desde 1906, este holótipo encontra-se no Museu de História Natural de Viena, Áustria. Está descrito como sendo muito semelhante ao seu congénere europeu, pombo-torcaz (Columba palumbus), diferindo apenas por ser ligeiramente mais escuro e possuir a mancha púrpura no peito mais extensa.

O ornitólogo Ernst Johann Schmitz (também conhecido na Madeira por Ernesto João Schmitz), que viveu na ilha da Madeira entre 1879 e 1908, quando esta ave já era rara, conseguiu, após grandes esforços, recolher apenas alguns espécimes e ovos. Desde 1924 não é avistado nenhum indivíduo desta espécie, tendo sido considerada como extinta em 1994.

Outro exemplo é a provável extinção local do pombo-trocaz ou pombo-da-madeira (Columba trocaz), na ilha de Porto Santo. Este é um animal corpulento e de hábitos gregários, sendo uma das três espécies endémicas de pombo da Macaronésia. O pombo-trocaz apenas existe na ilha da Madeira, mais propriamente na floresta laurissilva, alimentando-se de bagas de til. Nos últimos anos, tem vindo a aumentar a sua área de dispersão, alimentando-se de produções agrícolas e fazendo alguns estragos consideráveis.

Pombo-trocaz (Columba trocaz).
Em 1986, o pombo-trocaz foi considerado “espécie vulnerável” pela UICN e incluído na Diretiva Aves da comunidade europeia, passando a ser proibida a sua caça, que era praticada desde o início da colonização, no século XV. Em 2009, a espécie passou a “não ameaçada”, mantendo o estatuto de “protegida”, momento a partir do qual cresceu e ultrapassou os limites da floresta laurissilva (cerca de 1/5 da área da Madeira). Atualmente estimam que existam cerca de 12.000 a 15.000 indivíduos.

Para minimizar os prejuízos agrícolas, o Governo Regional facultou aos agricultores três tipos de dispositivos – espanta-pássaros a gás, redes de exclusão e fitas holográficas -, mas revelaram-se insuficientes e, por isso, foi autorizado o abate também por caçadores.

É inconcebível autorizar centenas de caçadores para abater uma espécie endémica e protegida, provavelmente sem qualquer controle sobre quantos estão a ser abatidos. A longo prazo isto pode ter efeitos destrutivos na população.

Voltando atrás no tempo... Na Madeira já houve outras aves que se especiaram em novas espécies, mas que, uma vez mais, extinguiram-se devido ao Homem.

Foi publicado na revista Zootaxa, em 2015, um artigo em que se descrevem cinco novas espécies de aves extintas nos Açores e Madeira, presumivelmente no século XV.

Todas estas espécies são mais pequenas do que o seu presumível antepassado: o Frango-d'água Europeu (Rallus aquaticus). Esta é uma ave migratória que pertence à família Rallidae, tratando-se de um grupo muito conhecido por ter colonizado várias ilhas ao longo da evolução. Pensa-se que cerca de 2000 espécies de Rallidae endémicas de ilhas já foram extintas com a chegada do Homem.

Duas destas espécies novas ocorreram na Madeira e no Porto Santo. Nos Açores, seis ilhas foram investigadas em termos paleontológicos e em todas elas foram encontrados fósseis, no entanto apenas foi possível descrever três novas espécies nas ilhas do Pico, de São Miguel e de São Jorge.


Concluindo, as ilhas são um hotspot de biodiversidade, onde se originaram inúmeras subespécies, espécies e até géneros novos para a ciência. Muitos deles não chegaram a ser conhecidos, e atualmente são poucos os que conhecemos. Muitos estão cingidos a uma determinada região, como por exemplo a freira-da-madeira e a freira-do-bugio, o que as tornam ainda mais vulneráveis. Havendo derrocadas, incêndios, envenenamentos, predações, ou tudo num só, pode levar à extinção estas emblemáticas aves, sendo imperativo a sua conservação.