terça-feira, 30 de agosto de 2022

Censos Costeiros

A SPEA, no âmbito do projeto LIFE Pterodromas 4Future, realiza quinzenalmente censos costeiros. Estes censos são realizados ao anoitecer e têm como objetivo amostrar, identificar e localizar a interação das aves em águas costeiras, e ao mesmo identificar fontes de poluição luminosa no mar.

Para a recolha de dados destes censos são utilizados diversos materiais: materiais óticos (binóculos e/ou telescópios), fichas de campo, bússola e régua, sendo estes apenas alguns dos materiais indispensáveis a esta ação.

Ao longo de 5 pontos de observação, previamente selecionados, e uma hora antes do pôr do sol dá-se o início do censo.

Nesta fase inicial o propósito é localizar aves marinhas perto da costa, através de um método de varrimento e com apoio do material ótico: são procuradas Jangadas. Estas são concentrações de aves marinhas pousadas na superfície do mar. Identificadas as jangadas é realizado o registo da localização, a espécie e o número de indivíduos observado na jangada.




Numa segunda fase, após o pôr do sol e durante as 3 horas seguintes, é caracterizada, através de escalas predefinidas, a iluminação geral do ambiente. São efetuados registos de fontes de poluição luminosa na costa e no mar. Estes registos contam com dados como a orientação da luz, intensidade e cor. Durante este registo são ainda anotadas as primeiras vocalizações de aves marinhas em terra.


A recolha destes dados permitirá correlacionar através de análise espacial, a interação das aves com foco de iluminação no mar. Minimizar os efeitos da poluição luminosa em zonas de passagem das aves marinhas, perto das colónias e no mar é um dos muito desafios que a SPEA Madeira tem vindo a trabalhar. Saiba mais sobre os projetos que pretendem melhorar o estado de conservação das aves marinhas em Pterodromas4future e Natura@night. 

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Porque temos medo do escuro?

 Os trabalhos de monitorização, colocação e recolha de GPS tem continuado e têm sido feitos essencialmente à noite. É à noite em que a maioria da população dorme e notamos que as avenidas e ruas mudam completamente, sendo possível percecionar os seres da noite ativos ao mesmo tempo que a maioria da população dorme profundamente.  

Durante uma das viagens de regresso a casa, após uma jornada de trabalhos na colónia de cagarras, dei por mim a pensar como a divisão entre o dia e a noite, traduzida em luz e escuridão, é mais do que uma questão física.  É, também uma necessidade social e cultural fundamental a todos os povos do Mundo. Em que durante a noite a prioridade é dormir e durante o dia predominam as atividades laborais.

E, mesmo com que iluminação em todas as ruas, existe a sensação de não estarmos seguros e por qualquer motivo temos medo da noite. Mas porque tememos tanto o escuro?

Vila madeirense. © Manuel Contreras

A resposta pode ser tão simples enquanto complexa, e para percebermos temos que pensar nos nossos antepassados e como a nossa espécie foi transportada pela história evolutiva.

Durante milhares de anos, os nossos antepassados não tiveram proteção durante a noite, estando altamente expostos e vulneráveis a potenciais predadores noturnos, ao longo de milhares de anos essa exposição trouxe o medo como resposta evolutiva. Como resultado, surgiram muitas gerações a serem selecionadas a mostrarem determinados comportamentos. De uma forma simplista, podemos alegar que os indivíduos que não temiam ao escuro acabavam por ser predados, reduziam a hipótese de sobrevivência, acabando assim por ser selecionados aqueles que tinham medo do escuro.

Se olharmos para os nossos cérebros como “máquinas” de processamento de informação, percebemos que estes tentam ao máximo reduzir a incerteza daquilo que temos ao nosso redor, construindo narrativas de modo que as coisas nos façam sentido. À noite e no escuro, reduz-se a adquisição de informação sensorial através da visão, ficando o processamento de informação limitado, potenciando a criação de narrativas para tentar explicar o que não vemos. Por este motivo, alguns de nós vê monstros e fantasmas durante noite, assumimos que a noite representa perigo e intuitivamente temos medo do escuro.

© Manuel Contreras

Isto levou a que o ser humano conseguisse levar luz às ruas e com isso a colocação de candeeiros e iluminação publica. Ao longo de anos foram colocados milhões de postes e candeeiros de iluminação publica, contribindo para que deixássemos algum medo de lado e começássemos a ser sociáveis à noite. 







© Manuel Contreras

Entramos numa nova fase e a iluminação passou a ser uma exigência. Agora durante noite existe iluminação suficiente que pareça dia, e milhares de candeeiros deixam áreas urbanas densamente iluminadas, muitas vezes sem necessidade.  

É fundamental haver a sensação de segurança pública, mas é importantíssimo cumprir os requisitos de eficiência enérgica, evitar a poluição luminosa, e garantir o equilíbrio ambiental.



A boa instalação de iluminação publica, bem projetada e de forma eficiente, permite reduzir o gasto de energia entre 60 e 70%, economizando milhões de euros por ano.

Na SPEA temos vindo a trabalhar nestas temáticas, no combate à poluição luminosa para proteção dos nossos seres da noite. Saiba mais sobre este trabalho em: https://naturaatnight.spea.pt/


quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Monitorização de uma colónia de cagarras (Calonectris borealis)

Pelo segundo ano, a SPEA Madeira visitou a colónia de cagarra (Calonectris borealis) no âmbito do programa INTERREG EELabs e LIFE Natura@Night. Várias informações foram recolhidas durante estas visitas, a fim de compreender melhor o comportamento desta espécie na ilha da Madeira: recolha de dados biométricos, colocação de anilhas e GPS-Loggers durante a época de alimentação das crias.


Cagarra (Calonectris borealis). Foto : Elisa Texeira.



As aves marinhas são o grupo de aves mais ameaçado do mundo. Devido à sua ecologia, a sua distribuição e comportamento no mar ainda é pouco conhecida. No entanto, é no mar que passam a maior parte da sua vida, vindo apenas a terra para nidificar.

A compreensão do comportamento desta ave marinha é, portanto, importante para desenvolver medidas de proteção da espécie. Uma destas medidas diz respeito à redução do impacto da poluição luminosa sobre as aves marinhas. 


De facto, as aves marinhas são vulneráveis à iluminação durante a noite. Devido aos seus olhos sensíveis, as aves marinhas podem ser desorientadas pela nossa luz artificial. Isto pode fazê-las colidir com infraestruturas, ser atropeladas, tornar-se presas para cães e gatos, ou mesmo morrer de desidratação. Isto diz mais respeito aos juvenis que, quando deixam o ninho para o seu primeiro voo, devido à falta de experiência, são afetados pela iluminação pública. Este comportamento de atração e deslumbramento pela luz artificial ainda não é bem compreendido, porém uma das explicações seria que as aves marinhas se orientam à noite pelas estrelas.


A utilização do GPS-Logger permitir-nos-á aprender mais sobre os movimentos desta ave no mar para encontrar alimento. Também nos permitirá compreender a potencial influência da luz artificial nas suas migrações.

A anilhagem dos indivíduos permite-nos ter uma identificação única para cada ave a fim de os seguir ao longo dos anos. Consiste na colocação de uma pequena anilha metálica com um número único à volta da perna da ave. Isto permitir-nos-á saber onde a ave foi anilhada e, portanto, aferir o movimento da ave ao longo dos anos. 


Foto: Tiago Dias.

Durante 5 noites consecutivas, visitamos a colónia de cagarras (Calonectris borealis) antes do anoitecer. Depois de nos instalarmos na colónia, esperámos pelo cair da noite e pela chegada dos indivíduos ao ninho para começar a recolher dados. De facto, os pais revezam-se no ninho para alimentar a cria depois do pôr-do-sol.


Em cada ninho, a ave foi retirada do seu ninho com auxílio de um par de luvas. A técnica consiste em esperar que a ave agarre o dedo com o seu bico e depois puxá-lo para fora pelo bico. A remoção da ave do ninho foi feita com muito cuidado para evitar feri-la. A ave foi então delicadamente manuseada para realizar as várias medições biométricas: peso, comprimento da asa, comprimento do bico e comprimento do tarso. A identificação do sexo só foi possível durante as vocalizações. As penas foram também recolhidas para análise genética dos isótopos.


Captura de um adulto. Foto: Elodie Crepin.



O GPS-Logger foi instalado na parte de trás da ave utilizando fita-cola e super-cola. Algumas penas foram reunidas, o GPS-Logger foi colocado com a fita, para que o dispositivo não se perdesse. Estes GPS não transmitem informação permanentemente ou a um certo intervalo, mas armazenam informação. Isto significa que precisamos de voltar dentro de algumas semanas para obter o GPS de volta e descarregar a informação. 

O processo de instalação de Loggers requer a monitorização inicial dos ninhos. O objectivo é encontrar adultos reprodutores que tenham uma cria para cuidar, pelo que farão várias viagens entre a costa e o mar a fim de a alimentar. Por outras palavras, estão constantemente a regressar ao ninho, permitindo-nos recolher o Logger e não perder o dispositivo e consequentemente os dados. Este é um processo demoroso porque quanto mais as crias crescem, menos frequentemente os pais vêm alimentá-las, e mais provável é que não nos cruzemos com eles para instalar ou recolher os Loggers. 










GPS utilizado este ani. Foto: Elodie Crepin.



Colocação de um GPS-Logger num adulto. Foto: Elodie Crepin.



A fim de evitar a manipulação do mesmo indivíduo duas vezes, as aves foram sistematicamente marcadas com batom na sua plumagem depois de terem sido efectuado as medições biométricas. 


Este ano, identificámos 16 ninhos ocupados. Dos 25 dispositivos GPS planeados, 18 foram instalados com sucesso nos indivíduos da colónia.

A instalação do GPS pode ser um verdadeiro desafio. De facto, mover-se em falésias íngremes nem sempre é fácil e requer uma boa condição física. Além disso, a instalação do GPS requer boas condições meteorológicas. De facto, a presença de chuva não é ideal para a instalação do GPS. Em primeiro lugar, torna difícil e perigoso caminhar sobre a falésia, mas também aumenta o risco de perder o GPS devido à perda de eficácia da cola. Também enfrentamos outras dificuldades no campo, tais como o tamanho e a profundidade dos ninhos. Em alguns casos, foi impossível colocar um GPS devido ao pequeno tamanho da entrada dos ninhos. Nesta situação, a ave não seria capaz de entrar no ninho com o GPS nas costas, o que não era desejado. Noutros casos, a instalação do GPS era impossível devido à profundidade dos ninhos, o que tornava impossível a captura das aves. Finalmente, a colocação do GPS foi também dificultada devido à ausência de um adulto no ninho no momento da nossa visita.


O passo seguinte é agora a recaptura dos adultos para recuperar o GPS. Esperamos ser capazes de recuperar a maioria dos GPS, a fim de recolher uma quantidade significativa de dados sobre os seus movimentos.


A continuar no próximo episódio...











Monitoring of a Cory's shearwater colony


For the second year, SPEA Madeira visited the colony of Cory’s Shearwater (Calonectris borealis) in the framework of the INTERREG EELabs programme and LIFE Natura@Night. Various information were collected during these visits in order to better understand the behaviour of this species in the Madeira Island: collecting biometric data, placing rings and GPS-Loogers during the chicks feeding season.


Cory's Shearwater (Calonectris borealis). Picture: Elisa Texeira.


Seabirds are the most threatened group of birds in the world. Due to their mobile and dispersed ecology, their distribution and behaviour at sea is still little known. However, it is at sea where they spend most of their lives, coming ashore only for breeding.

Understanding the behaviour of this seabird is therefore important in order to develop measures to protect the species. One of these measures concerns the reduction of the impact of light pollution on seabirds. 


Indeed, seabirds are vulnerable to our illumination at night. Due to their sensitive eyes, seabirds can be disoriented by our artificial light. This can cause them to crash into infrastructure, get run over, become prey for dogs and cats, or even die of dehydration. This concerns more specifically the juveniles when they leave the nest for their first flight. This behaviour of attraction and dazzlement by artificial light is still not well understood. One explanation would be that seabirds orient themselves at night with the stars.


The use of GPS will allow us to learn more about the movements of this bird at sea to find food. It will also allow us to understand the potential influence of artificial light on their movement.

The ringing of individuals allows us to have a unique identification for each bird in order to follow them over the years. It consists of placing a small metal ring with a unique number around the leg of the bird. This will allow us to know where the bird was ringed and therefore to determine the movement of the bird over the years.


Picture: Tiago Dias.



For 5 consecutive nights, we visited the Cory’s Shearwater (Calonectris borealis) colony before nightfall. After settling in the colony, we waited for nightfall and the arrival of the individuals at the nest to start collecting data. Indeed, the parents take turns at the nest to feed the chick after the night has fallen.

In every nest, the bird was removed from its nest with a pair of gloves. The technique consists of waiting for the bird to grab the finger with its beak and then pulling it out by the beak. The removal of the bird from the nest was done with great care to avoid injuring them. The bird was then gently handled in order to perform the various biometric measurements : weight, wing length, beak length and tarse length. The identification of the sex was only possible during vocalizations. Feathers were also collected for genetic analysis.


Capture of an adult. Picture: Elodie Crepin.


The GPS was installed on the back of the bird using cloth tape and superglue. A few feathers were gathered together, the logger was placed and wrapped with the tape, so that the bird was not hindered and the device was not lost. These GPS do not transmit information permanently or at a certain interval, but store information. It means that we need to come back in a few weeks to get the GPS back and download the information. 

The process of installing loggers requires initial nest monitoring. The aim is to find a couple of shearwaters that have a chick to look after, so they will make several trips between the coast and the sea in order to feed it. In other words, they are constantly returning to the nest, allowing us to collect the logger and not lose the device or the data. This is a lengthy process because the more the chicks grow, the less often the parents come to feed them, and the more likely it is that we will not cross paths with them to install or collect loggers. 










GPS used this year. Picture: Elodie Crepin.


Putting a GPS-Logger on an adult. Picture: Elodie Crepin.


In order to avoid the manipulation of the same individual twice, the birds were systematically marked with lipstick on their plumage after taking the biometric measurements. 


This year we identified 16 nests that were occupied. Of the 25 GPS devices planned, 18 were successfully installed on the individuals in the colony.

The installation of GPS can be a real challenge. Indeed, moving on steep cliffs is not always easy and requires a good physical condition. Besides, the installation of GPS requires good meteorological conditions. Indeed, the presence of rain is not ideal for the installation of GPS. First of all it makes walking on the cliff difficult and dangerous but it also increases the risk of losing the GPS due to a loss of effectiveness of the glue when installing the GPS. We also faced other difficulties in the field, such as the size and depth of the nests. In some cases, it was impossible to place a GPS due to the small size of the nest entrance. In this situation, the bird would not be able to enter the nest with the GPS on its back which was not wanted. In other cases, the installation of GPS was impossible due to the depth of the nests, which made it impossible to capture the birds. Finally, the placement of GPS was also made difficult due to the absence of an adult in the nest at the time of our visit.



The next step is now the recapture of the adults to recover the GPS. We hope to be able to recover the majority of the GPS's in order to collect a significant amount of data on their movements.


To be continued in the next episode…


terça-feira, 16 de agosto de 2022

Estrelas Fugazes

Perseidas. © M.R. Alarcón | D.Padrón.

 No passado dia 12 de agosto, não fui o único a olhar para o céu.  A SPEA, em colaboração com a Associação de Astronomia da Madeira e o Instituto de Astrofísica das Ilhas Canárias (IAC), dinamizou uma atividade para a população, afim de assistir a Chuva das Perseidas. Esta atividade decorreu na sede da Associação deAstronomia da Madeira, na Casa do Areeiro.

Apesar da previsão de uma Super Lua que iria dificultar a observação, a sessão teve uma adesão considerável (mais de 3 centenas de pessoas), em que nitidamente notou-se o interesse da população em procurar o contacto com a natureza e na observação de fenómenos naturais.


©Elisa Texeira


O início deu-se com uma breve apresentação da SPEA, em que foi abordada a problemática poluição luminosa na biodiversidade. Foi uma excelente oportunidade para dar a conhecer os trabalhos de conservação realizados pela SPEA, o impacto da iluminação publica nos seres vivos, e o contributo que cada cidadão e entidades governamentais podem dar para a mitigação deste problema.




A atividade continuou com uma palestra proferida pelo Instituto de Astrofísica de Canarias, sobre a astronomia e lendas associadas. Foram abordados diversos temas superinteressantes, como a descrição da nossa Via Láctea, qual é o caminho e as adversidades futuras no trabalho de investigação astronómica, e ainda, uma explicação detalhada do fenómeno que iriamos assistir, as Perseidas.

De forma muito minimalista, este incrível fenómeno astrológico, acontece todos os anos, e é fruto do atravessamento da terra por uma nuvem de poeiras e rochas deixadas pelo cometa Swift-Tuttle. As poeiras e rochas (meteoroides), ao entrarem em contacto com a atmosfera terreste, atraídas pela gravidade, formam meteoros, ou estrelas fugazes. Fruto do impacto e da passagem pela atmosfera, o meteoro forma um raio de luz que forma um espetáculo luminoso, popularmente chamado de estrela cadente. 


©Elisa Teixeira 

Após as palestras muito elucidativas por parte da SPEA e do IAC, a Associação de Astronomia da Madeira ofereceu uma sessão de observação do espaço através de telescópios.

Foi possível observar algumas constelações, exames estrelares, nebulosas, a crosta da Lua, Saturno e Júpiter com as suas respetivas luas. Para além das espetaculares imagens observadas no telescópio, os astrónomos da associação foram impecáveis nas explicações daquilo que era observado, dos movimentos e das distâncias.



 ©Tiago Dias



Apesar da fase cheia de uma Superlua, que prejudicou a visualização das Perseidas, a sessão esteve recheada na troca de informações sobre a biodiversidade e a astronomia. Numa época em que a sensibilização e a divulgação de ciência é de suma importância para a população, só é possível realizar este evento graças as sinergias entre parceiros que defendem estudar a natureza, e juntam esforços para mitigar problemas associados a poluição luminosa.





Houve ainda oportunidade para uma transmissão das perseidas em direto no https://sky-live.tv/. Esta transmissão ainda esta disponível no site e no Youtube.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Novo estagiário SPEA Madeira


        Chamo-me Ricardo Reinolds, sou natural da Madeira e vou estagiar durante 3 meses na SPEA Madeira onde vou dar apoio nas ações de conservação com aves marinhas e insetos no âmbito dos projetos LIFE Natura@night e LIFE Pterodromas4future.

        Estou neste momento a terminar o mestrado em Ecologia pela Universidade de Coimbra e durante o meu percurso académico tive a oportunidade de trabalhar com várias vertentes da biologia, desde biotecnologia e diversidade vegetal a caracóis terrestres, mas sempre adquiri um interesse especial pelo estudo das aves, as comunidades que integram e o seu papel nos ecossistemas. Com alguns voluntariados e estágios nas ilhas Desertas, Selvagens e Berlengas pude aprender mais sobre aves marinhas e a sua ecologia e tenho o objetivo de entender como os efeitos de fatores ambientais e antropogénicos podem interferir e impactar as populações destas espécies, com foco na sua biologia comportamental e mecanismos fisiológicos, de modo a melhorar estatutos de conservação e criar medidas de proteção ambientais.  

Sempre procurei entender mais sobre o papel fundamental que cada espécie, tanto vegetal como animal, pode ter num ecossistema e consequentemente nas nossas vidas. Desde a minha licenciatura que faço várias saídas onde tento observar e registar, através de fotografias e notas, a diversidade de fauna e flora pois acredito que é importante reconhecer e entender as suas interações biológicas. Deste modo, não só é possível desenvolver diretivas de proteção para a natureza como também é essencial em termos de divulgação para o público em geral. O arquipélago da Madeira, como conjunto de ilhas atlânticas e pertencente a um hotspot de biodiversidade mundial– a Macaronésia – apresenta uma elevada riqueza ecológica e inúmeras espécies endémicas de valor único. Como tal, é e será sempre necessário proteger a sua biodiversidade, não só pelas suas características excecionais, mas, porque deste modo conseguimos preservar o balanço natural do qual dependemos.

Os projetos de divulgação dos impactos de poluição luminosa em colónias de aves marinhas e no seu comportamento em torno da ilha realizados pela SPEA Madeira demonstram a importância que a organização tem para a conservação das espécies insulares, o qual despertou-me interesse em participar nas ações de conservação e onde espero contribuir para os objetivos gerais e aprender mais ainda como biólogo. Estou ansioso por trabalhar nos projetos LIFE e motivado por fazer parte desta grande equipa.

Deserta Grande. Foto: Ricardo Reinolds

        My name is Ricardo Reinolds, I’m from Madeira and I’ll be working during 3 months as an intern in SPEA Madeira, where I’ll be helping in conservation actions with seabirds and insects implemented in the LIFE Natura@night and LIFEPterodormas4future projects.

        I’m completing my Masters in Ecology at the University of Coimbra and throughout my academic life I had the opportunity to work in various branches of biology, from plant diversity and biotechnology to land snails, yet I always gained a special interest in avian studies, bird communities and their role in the ecosystems. Having done some volunteer work and internships in the Desertas, Selvagens and Berlengas Islands, I learned more about seabirds and their ecology, where I acquired the objective to understand how environmental and anthropogenic factors can interfere and impact the populations of these species, focusing on their behaviour and physiological mechanisms, in way of improving conservation status and create environmental protections measures.


Calonectris borealis - Selvagem Grande. Foto: Ricardo Reinolds

       I’ve always tried to understand more about the fundamental role that each species, plant or animal, could have in an ecosystem and consequently in our lives. Ever since I initiated my bachelor’s degree, I enjoy making several field trips where I try to observe and register, trough photos and notes, the diversity of fauna and flora, as I believe that is important to learn and recognize the biological interactions between them. This way not only is possible to develop protection directives for the environment as it essential when it comes to divulgation to the general public. The Madeira’s archipelago, as a group of Atlantic islands and belonging to a big world biodiversity hotspot – the Macaronesia – presents a great ecological richness and numerous endemic species of unique value. As so, it is and it will always be necessary to protect the island biodiversity, not just for its exceptional characteristics, but because it’s the only way to preserve the natural balance that we, as humans, depend upon.

        The projects of divulgation of light pollution impact in seabird colonies and in their general behaviour, in the surroundings of Madeira Island, demonstrate the importance that SPEA Madeira, as an organization, has in the conservation of these island species, in which I had great interest in participating and where I hope to contribute to their general objectives and learn even more as a biologist. I am excited to work with the LIFE projects and motivated to be part of this great team.


                                                                     

 


 

 

Descobrir as Ilhas Desertas

No âmbito do projeto LIFE Natura@night, os biólogos e voluntários da SPEA Madeira foram na semana passada a vários locais, incluindo às Ilhas Desertas, para colocar GPS nos pares reprodutores de cagarras (Calonectris borealis). Com esse novo tipo de dados, esperamos obter mais informações sobre seu comportamento durante esse período crítico em que os adultos voam noturnamente para o mar para alimentar seus filhotes. Ao entender essas tendências, esperamos ser capazes de entender o impacto da poluição luminosa e implementar medidas de mitigação eficientes nos próximos anos.

Colocamos um GPS sobre uma Cagarra, Foto T.Quartier

Nas Ilhas Desertas, tivemos a sorte de sermos recebidos pelos Vigilantes da Natureza na estação de investigação da Deserta Grande. Esta foi a oportunidade de descobrir mais sobre as origens e a riqueza das Ilhas Desertas.

Ilhas Desertas são compostas por três ilhas: Ilheu Chão (a mais pequena, mais próxima da Madeira), Deserta Grande (a maior, com 12 km de extensão) e Bugio (a mais alta, até 410 m de altura). Foram descobertas e nomeadas por João Gonçalves Zarco por volta de 1420. Em 1971 o Estado Português comprou-os e transformou-os em Reserva Natural em 1990, devido ao seu papel de santuário de espécies endémicas e ameaçadas.

Ilheu Chão, T.Quartier

Localizadas a 25km a sudeste do Funchal, as Desertas são facilmente visíveis a partir da Madeira mas o acesso ainda é restrito à zona norte da Deserta Grande para turistas. Os barcos estão proibidos de se aproximarem demasiado da zona sul da Deserta Grande e do Bugio.

Ao percorrer o caminho e entrar no centro de informação, pode aprender muito sobre várias espécies emblemáticas que procuram abrigo nas Desertas, para além das várias espécies de aves marinhas (alma-negra, cagarra) que nidificam nas Desertas.

A foca-monge do Mediterrâneo, « lobo-marinho », talvez a mais famosa, está a recuperar lentamente de estar perto da extinção na área atlântica. Às vezes pode ser observado perto da costa, com um pouco de sorte e um bom par de binóculos.

No alto do planalto da Deserta Grande vive uma aranha-lobo endémica, a raríssima tarântula da Deserta Grande (Hogna ingens). Ela caça à noite e se alimenta de lagartos e insetos. Na ilha do Bugio cria-se a endémica freira-de-Bugio (Pterodroma deserta) que por vezes é considerada como uma subespécie do gon-gon (Pterodroma feae). Esta elegante ave marinha às vezes pode ser vista do barco durante a viagem às ilhas.

Freira-do-Bugio, T.Quartier

Ainda assim, os frágeis ecossistemas dessas ilhas desabitadas estão sob a pressão de espécies não nativas, como ratos, coelhos e cabras, que foram introduzidas há muito tempo. Foram realizadas campanhas de extermínio para retirar coelhos mas as cabras selvagens continuam a ser uma ameaça para a flora endémica que cresce nas Desertas. Esperemos que as espécies que se reproduzem nas Desertas continuem a ser protegidas de ameaças ecológicas como espécies invasoras, caça furtiva ou pressão de sobrepesca.

Cabras na Deserta Grande, T.Quartier

As part of LIFE Natura@night project, the SPEA biologists and volunteers went during the previous weeks in several locations including Desertas Islands to put GPS loggers on Cory’s shearwaters (Calonectris borealis) breeding pairs. With this new kind of data, we hope to get more information about their behaviour during this critical period when adults nocturnally fly to the sea to feed their chicks. By understanding these trends, we hopefully will be able to understand the impact of light pollution and to implement efficient mitigation measures in the next years.

In Desertas Islands, we had the chance to be the hosts of the nature wardens in the research station on Deserta Grande. This was the opportunity to discover more about the origins and the richness of Desertas Islands.

Estação na Deserta Grande, T.Quartier

The Desertas are composed of three islands: Ilheu Chão (the smallest one, closest to Madeira), Deserta Grande (the biggest one, with a length of 12 km) and Bugio (the highest one, up to 410 m high). They were discovered and named by João Gonçalves Zarco around 1420. In 1971 the Portuguese State bought them and turned them into a nature reserve in 1990, due to their role as a sanctuary for endemic and threatened species.

Located 25km south-east from Funchal, the Desertas are easily seen from Madeira but the access is still restricted to the northern part of Deserta Grande for tourists. Boats are forbidden to come too close to the southern part of Deserta Grande and Bugio.

When walking along the path and entering the information centre, you can learn a lot about several emblematic species that seek shelter in Desertas, in addition of the various seabird species (Bulwer’s petrel, Cory’s shearwater) that breed on Desertas.

Cagarra perto de Ilheu Chão, T.Quartier

The Mediterranean monk seal, “lobo-marinho”, maybe the most famous one is slowly recovering from being close to extinction in the Atlantic area. It can be sometimes observed close to the shore, with a bit of luck and a good pair of binoculars.

High up on the Deserta Grande plateau lives an endemic wolf spider, the very rare Deserta Grande wolf spider (Hogna ingens). It hunts at night and preys on lizards and insects. On Bugio Island breed the endemic Desertas petrel (Pterodroma deserta) which is sometimes considered as a subspecies of Fea’s petrel (pterodroma feae). This elegant seabird can sometimes be seen from the boat during the trip to the islands.

Still, the fragile ecosystems of these uninhabited islands are under the pressure of non-native species such as mice, rabbits and goats which were introduced a long time ago. Extermination campaigns were conducted to remove rabbits but wild goats are still a threat for the endemic flora that grows on Desertas. Hopefully the species breeding on Desertas will continued to be protected from ecological threats such as invasive species, poaching or overfishing pressure.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

A vida misteriosa de Calonectris borealis

 Após uma longa “invernada”, estou de volta à SPEA, desta vez no âmbito do programa Estágio de Verão promovido pela Secretaria Regional da Juventude. Pelo que hoje venho vos falar de uma das minhas aves favoritas.

Com a chegada do verão, é chegada a altura da reprodução, logo é também iniciada nesta época a prospeção de ninhos de aves marinhas. Na Região Autónoma da Madeira existem 8 aves marinhas nidificantes, todas com um valor biológico inegável, mas neste artigo, tal como o título sugere, o destaque é para a Cagarra, Calonectris borealis.

Foto: Elisa Texeira


 Os trabalhos passam pela prospeção de ninhos, anilhagem científica dos progenitores e descendentes, e ainda a instalação de GPS-Loggers. Sobre a metodologia de prospeção de ninhos e instalação de GPS, pode saber mais aqui Prospeção de ninhos 2021, aqui Prospeção de ninhos 2022 e aqui Instalação de loggers.

 E fazemos isto, com o intuito de saber mais sobre esta espécie visto que estas abordagens científicas permitem-nos estudar a ecologia, biologia e comportamento desta ave. Sendo assim, torna-se possível perceber os seus movimentos, reprodução e demografia populacional.

O fascínio e o estudo das cagarras não é de todo algo novo. Ao longo de várias décadas, esta ave tem sido observada e estudada. 

Em 1901, num artigo publicado no Cosmo pelo ornitólogo Padre Ernesto Schmitz, podemos ler que a cagarra é a principal riqueza das Selvagens. Numa altura em que a caça à cagarra era legal e eram aniquiladas 20 a 22 mil cagarras anualmente, ele estimou a população em 60 000 indivíduos, “porque cada Cagarra põe apenas um ovo por ano, e é necessário haver pelo menos 40.000 para uma reprodução anual de 20 mil. Em parte alguma do mundo existe tamanho número de Cagarras”.

Na obra do Padre Eduardo Clemente Nunes Pereira, as Ilhas de Zarco, cuja 1ª edição fora lançada em 1926, podemos ler: “(…) fazem a postura anual, demorando-se em bando o tempo necessário para levar consigo a nova prole. Aninham-se acasaladas em recantos de rocha (…); algumas recolhem-se na entrada de tocas de coelhos (…); outras em pequenas cabanas armadas de pedras (…). Mas umas e outras habitações são respeitadas e reconhecido o direito de inquilínato por toda a colónia. “

Na mesma obra é possível ler sobre o compromisso parental entre os progenitores: “A grande postura vai de fins de maio até princípios de Junho. O ovo de cada casal é chocado alternadamente pela fêmea e pelo macho, não faltando nem um nem outro ao cumprimento deste dever doméstico e chegando sempre a horas para ocupar o seu posto. O que fica livre da tarefa segue o rumo do mar à busca de pesca, tendo à noite, na volta, uma recepção afável e festiva com manifestos sinais de enternecido acolhimento.” E ainda sobre a sua interação com o homem:  “(…) são tão mansas que é preciso ter o cuidado de afastá-las para não as pisar. Seguem o homem familiarmente e dormem com ele dentro das suas improvisadas cabanas. Deixam-se pegar à mão pelas pontas das azas cruzadas sobre a cauda. (…) não estranham a visita dos habitantes fortuitos das llhas, que não temem, defendendo a golpes de bicada a postura sem abandonarem o ninho (..). Qualquer tentativa para obrigar uma Cagarra a chocar dois ovos é frustrada pela unitilização do ovo intruso, a não ser que a mistura dos dois a faça perder a noção do que é seu, aceitando-os então pelo instinto maternal. Mas irritam-se e reagem fortemente se alguém, abusando da sua boa fé e familiaridade, colher o ovo para o subtrair à incubação.

Apesar de parecer uma história retirada de um livro de aventuras, a época reprodutiva para as cagarras é rigorosa. Na pré-postura após encontrar ou escolher o parceiro, acasalam, preparam a postura e defendem os ninhos. No período em que é necessário alimentar as crias, os progenitores fazem viagens frequentes para o mar à procura de alimento. Este investimento tem custos energéticos que podem variar ao longo da época reprodutiva. Isto, sem falar em todas as ameaças transversais que existem nas idas e vindas da captura de alimentos.

Distante dos trabalhos feitos no século passado, o nosso trabalho tem passado por avaliar o estado de conservação, aumento do conhecimento dos movimentos migratórios e de alimentação durante a época reprodutiva. A recolha destas informações permitirá identificar zonas mais sensíveis, onde medidas redutoras de poluição luminosa serão uma prioridade.

Sabemos que a poluição luminosa afeta as aves marinhas, e assim queremos reduzir os efeitos nocivos da iluminação artificial, estas recolhas de dados são realizadas no âmbito do projeto LIFE Natura@night e pretende salvar milhares de aves marinhas na macaronésia.

 

Para concluir, estarei este verão a contribuir ativamente nesta recolha de dados, vivenciando a vida fantástica da cagarra, e admirando a sua capacidade de vencer adversidades, a sua lealdade e seu compromisso parental.