O Halloween já ficou para trás. As abóboras foram apagadas, as máscaras voltaram para as gavetas, e com elas as histórias de espíritos e aparições.
Mas, para quem vive perto do mar, a atmosfera de mistério nunca desaparece por
completo.
Há presenças que se movem no escuro, enchendo
a noite de chamamentos inquietantes e fascinantes.
Não são fantasmas, mas criaturas reais: aves marinhas que escolhem as horas do
crepúsculo ou da noite para momentos cruciais da sua vida, habitantes antigos
do oceano, mestres do vento e do silêncio.
Entre a Sardenha e a Madeira estendem-se
milhares de quilómetros de oceano e profundas diferenças geográficas.
Mas quem escuta a noite numa falésia sarda ou nas Ilhas Desertas poderá ouvir
ecos semelhantes: asas que regressam do mar, sons que ligam o Mediterrâneo ao
Atlântico numa linguagem antiga e universal.
Na Sardenha, a protagonista é a Cagarra do
Mediterrâneo (Calonectris diomedea), enquanto na Madeira voa a sua
“irmã atlântica”, a Calonectris borealis.
Tal como a espécie mediterrânica, põe apenas um ovo por ano: um investimento
enorme, que explica a sua vulnerabilidade às ameaças humanas.
Duas espécies tão próximas que parecem ser a
mesma, separadas apenas por mares e ventos.
Também entre as aves-de-tempestade o elo entre
Sardenha e Madeira continua.
No Mediterrâneo sopra a Hydrobates pelagicus melitensis, que pesa menos
de 30 gramas, mas percorre milhares de quilómetros entre o alto mar e as costas
rochosas.
É uma das menores aves marinhas do mundo, e o seu cheiro característico tem uma
função biológica importante: ajuda as crias a reconhecerem os progenitores
quando regressam ao ninho.
No Atlântico voa o seu parente Hydrobates
castro, igualmente discreto, que partilha a mesma estratégia reprodutiva:
nidifica no interior de cavidades profundas, muitas vezes a mais de um metro da
entrada, onde a temperatura se mantém estável mesmo no verão.
Ambas as espécies preferem a noite, ambas permanecem invisíveis ao olhar humano e por isso parecem quase criaturas de lenda.
E depois há ela, a Alma-negra (Bulweria
bulwerii), que na Madeira acrescenta ao quadro uma nota de mistério
ainda maior.
É uma das poucas aves procelariiformes que se move com um bater de asas
contínuo, em vez de depender apenas das correntes de ar, como fazem as
cagarras.
Os seus olhos escondem ainda uma curiosidade: possuem um revestimento
pigmentado que reduz os reflexos da lua, melhorando a visão ao crepúsculo.
O nome parece saído de um conto gótico, e no
entanto o seu canto, em vez de assustar, embala.
Nas noites das Desertas, a sua voz acompanhava os momentos de maior silêncio —
um som suave, quase como a respiração do mar.
A Alma-negra vive imersa na escuridão, longe de tudo, invisível, mas presente.
É a alma secreta do oceano, a expressão perfeita de uma vida que prefere
ocultar-se, mas que se revela com toda a sua força quando o sol se põe.
Há um fio que une todos estes seres, desde as
cagarras do Mediterrâneo até às do Atlântico, das Hydrobates às Alma-Negra: o
amor pela noite.
A escuridão não é ausência de vida, mas proteção.
As trevas geram um espaço de segurança e liberdade.
Mas hoje, essa escuridão está em perigo.
As luzes artificiais que iluminam as costas e
os portos desorientam estas aves, atraindo-as para longe do mar e colocando em
risco a sua sobrevivência.
Em algumas ilhas do Atlântico, incluindo a Madeira, todos os anos centenas de
jovens cagarras precisam de ser resgatadas do chão e devolvidas ao mar, depois
de caírem por causa dos faróis, estradas ou zonas turísticas.
Proteger a noite é proteger também estas aves:
as verdadeiras habitantes da escuridão, as guardiãs silenciosas dos nossos
mares.
Escutá-las é como sentir um suspiro profundo partilhado entre duas ilhas
distantes, dois mundos irmãos.
E descobrir que, na escuridão onde quer que ela esteja não há medo, mas
apenas maravilha.
English version
Halloween is already
behind us. The pumpkins are out, the masks are back in drawers, and with them
all the tales of spirits and apparitions.
Yet, for those who live close to the sea, the feeling of mystery never quite
disappears.
There are presences
that move in the dark, filling the night with haunting and fascinating calls.
They’re not ghosts, but real creatures: seabirds that choose twilight or night
hours for the most delicate moments of their lives, ancient inhabitants of the
ocean, masters of silence and wind.
Thousands of
kilometers and deep geographical differences separate Sardinia from Madeira.
Still, anyone listening from a cliff in the Sulcis or on Desertas Island might
catch similar echoes: wings returning from the sea, voices that tie the
Mediterranean and the Atlantic together in an ancient, universal language.
In Sardinia, the
protagonist is the Scopoli’s shearwater (Calonectris diomedea),
while in Madeira its “Atlantic sister”, Calonectris borealis, takes its
place.
Like its Mediterranean counterpart, it lays only one egg per year: a huge
investment that makes the species vulnerable to any external threat.
Two species so close
they could almost be the same, divided only by seas and winds.
The bond continues
even among storm-petrels.
In the Mediterranean flies Hydrobates pelagicus melitensis, weighing
less than 30 grams, yet capable of traveling thousands of kilometers between
open sea and rocky nesting sites.
It’s one of the smallest seabirds in the world, and its distinct smell plays an
important biological role: it allows chicks to recognize their parents when
they return to the nest.
Across the Atlantic
flies its relative Hydrobates castro, equally discreet, sharing the same
reproductive strategy: it nests deep in rock cavities, often more than a meter
into the ground, where the temperature stays stable even in summer.
Both species favor dark hours and remain hidden from human sight which gives
them an aura of legend.
And then there’s Bulwer’s
petrel (Bulweria bulwerii), the “Alma Negra”, which adds a further
note of mystery to Madeira’s skies.
It’s one of the few petrel species with a continuous wingbeat instead of
gliding on air currents like shearwaters.
Its eyes also hide an uncommon feature: a pigmented film that reduces moonlight
reflection, improving vision during dusk and night flights.
Its name sounds like
it came from a gothic tale, but its call soothes rather than frightens.
On the Desertas islands, its voice gently broke the silence a soft sound,
almost like the ocean’s breath.
Bulwer’s petrel lives fully in the shadows, far from everything, invisible yet
ever-present.
It is the hidden soul of the ocean, the perfect embodiment of a life that
prefers to remain out of sight, but reveals itself in full force when the sun
goes down.
There is a thread
connecting all these beings, from Mediterranean shearwaters to Atlantic ones,
from storm-petrels to Bulwer’s petrel: a bond with the night.
Darkness is not the absence of life, but protection.
It creates a space of safety and freedom.
Today, though, that
darkness is at risk.
Artificial lights
along coasts and harbors disorient these birds, luring them away from the sea
and putting their survival at stake.
On several Atlantic islands, including Madeira, hundreds of young shearwaters
need to be rescued from the ground every year, having fallen after being drawn
toward car headlights or tourist harbor lights.
Protecting the night
means protecting them too: the true inhabitants of darkness, the silent
guardians of our seas.
Listening to them is like sensing a long, shared breath between two distant
islands, two sibling worlds.
And discovering that in the dark, wherever it unfolds, there is no fear, only
wonder.
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