quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Adeus SPEA! 🪶

Candidatei-me a este estágio na SPEA através de uma recomendação, acreditando que esta experiência combinaria comigo. No início, não imaginava o impacto que aquela sugestão viria a ter, mas rapidamente percebi que este estágio seria muito mais do que uma simples aprendizagem profissional e técnica: seria também uma aproximação profunda e pessoal ao trabalho da conservação e uma nova forma de me ligar à ilha onde cresci.

As minhas principais tarefas incluíram a realização de campanhas de sensibilização ambiental sobre a poluição luminosa e o apoio às campanhas de resgate noturnas, tanto da freira-da-madeira como da cagarra. Tive ainda a oportunidade, ocasionalmente, de participar nas anilhagens de juvenis de cagarra: uma experiência que me marcou profundamente. Foi precisamente na minha primeira saída de campo que vivi o momento mais memorável destes dois meses.

Ao segurar e observar pela primeira vez um juvenil de cagarra, senti um misto difícil de descrever entre nervosismo, entusiasmo e admiração. Nesse instante, compreendi verdadeiramente a importância e a responsabilidade inerentes ao trabalho da conservação daquelas aves tão místicas. O trabalho de sensibilização também me marcou. A divulgação que realizamos nas empresas e estabelecimentos nem sempre foi recebida da melhor forma, mas esse desafio mostrou-me a importância de comunicar de forma clara e empática, para que fosse possível reduzir a poluição luminosa precisamente na “raiz” do problema.

A equipa da SPEA e os voluntários que conheci tornaram esta experiência ainda mais positiva e especial. Aprendi muito, diverti-me e saí com ótimas memórias que guardo com carinho. No futuro, espero poder voltar a colaborar com os projetos da SPEA, levando comigo tudo o que aprendi ao longo deste estágio. Até já!

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Por uma noite mais obscura

 No final de outubro e início de novembro realizou-se uma segunda campanha de proteção das aves afetadas pela poluição luminosa. Desta vez, a ação concentrou-se numa das aves marinhas mais abundantes de Portugal, a cagarra (Calonectris borealis). As saídas ocorreram ao anoitecer, aproximadamente uma hora após o pôr-do-sol, percorrendo diferentes zonas do sudeste da ilha.

A importância desta campanha reside no momento crítico em que as crias de cagarra abandonam os ninhos para se dirigirem ao mar, onde passarão gran parte das suas vidas. É durante este percurso que podem encontrar o seu maior obstáculo: as luzes artificiais das zonas costeiras.

As cagarras são especialmente ativas durante a noite, orientando-se pela luz natural da lua e das estrelas. No entanto, as luzes artificiais das cidades e povoações podem desorientá-las, levando muitas vezes a que caiam no solo e fiquem vulneráveis a possíveis predadores.

Embora o principal foco da campanha tenha sido a cagarra, esta não é a única espécie afetada pela poluição luminosa. Durante os percursos também foram encontrados indivíduos de outra espécie que partilha estes habitats e enfrenta problemas semelhantes.

Estas saídas noturnas foram realizadas não apenas pelo pessoal da SPEA, mas também por dezenas de voluntários, amantes da natureza e das aves, que se mobilizaram nesses dias para viajar até à Madeira, vindos de diferentes partes do mundo: desde Portugal continental ou Espanha até mesmo da Nova Zelândia.

Graças à sua ajuda foi possível dar uma segunda oportunidade a estas aves que, desorientadas pela poluição luminosa, caem indefesas e expostas a diversas ameaças.

As aves encontradas foram colocadas em caixas e levadas para um local seguro, escuro e próximo do mar, onde pudessem levantar voo e regressar ao seu habitat natural.

Estas campanhas, que decorrem há vários anos, já permitiram salvar mais de mil aves marinhas, lembrando-nos da importância de proteger o ambiente que nos rodeia.



ENGLISH VERSION

For a darker night

At the end of October and the beginning of November, a second rescue campaign for birds affected by light pollution took place. This time, the campaign focused on one of the most abundant seabirds in Portugal, the Cory’s shearwater (Calonectris borealis). The outings were carried out after nightfall, approximately one hour after sunset, covering different areas in the southeast of the island.

The importance of this campaign lies in the critical moment when Cory’s shearwater chicks leave their nests to head toward the sea, where they will spend most of their lives. It is during this journey that they may encounter their greatest obstacle: the artificial lights of coastal areas.

Cory’s shearwaters are particularly active at night, navigating by the natural light of the moon and the stars. However, the artificial lights of towns and cities can disorient them, causing them in many cases to fall to the ground and become vulnerable to potential predators.

Although the main target of this campaign was the Cory’s shearwater, it is not the only species affected by light pollution. During the patrols, individuals from another species that shares these habitats and faces similar threats.

These nighttime outings were carried out not only by SPEA staff but also by dozens of volunteers, nature and bird lovers, who travelled to Madeira from different parts of the world: from mainland Portugal or Spain, and even as far away as New Zealand.

Thanks to their help, it was possible to give a second chance to these birds which, disoriented by light pollution, fall to the ground defenseless and exposed to multiple dangers.

The rescued birds were placed in boxes and taken to a safe, dark area near the sea, where they could take flight and return to their natural habitat.

These campaigns, which have been carried out for several years now, have allowed more than a thousand seabirds to be rescued, reminding us of the importance of protecting the environment around us.

 





segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Até à próxima, SPEA!

Termina mais uma etapa do meu voluntariado nesta organização, e saio daqui ainda mais realizada. Tive a oportunidade de participar e coordenar as patrulhas da Campanha “Salve uma Ave Marinha”, conhecer voluntários de várias partes do mundo motivados pela mesma causa e dedicar-me a ações de sensibilização junto dos madeirenses, para que conheçam e colaborem na redução dos impactos da poluição luminosa nas aves marinhas da nossa ilha.

Levo comigo um enorme crescimento pessoal e um conhecimento mais profundo sobre as iniciativas e políticas que procuram mitigar esta problemática para além das fronteiras de Portugal. Este contacto direto com a conservação reforçou o meu sentido de responsabilidade enquanto cidadã e bióloga, mostrando-me o verdadeiro impacto que cada ação pode ter na proteção das espécies mais vulneráveis.

Foi um prazer voltar a colaborar com a equipa da SPEA Madeira, no âmbito do projeto LIFE Natura@night. Num mundo cada vez mais iluminado, proteger a escuridão natural tornou-se essencial para garantir o futuro das espécies que dela dependem. Espero que cada vez mais pessoas se juntem a esta causa, pois mesmo as pequenas ações comunitárias têm um impacto enorme na sobrevivência destas aves.

Levo desta experiência a certeza de que continuarei a contribuir para a proteção da natureza, seja aqui ou além-fronteiras. E, quem sabe, talvez para o ano voltem a contar comigo nas campanhas de resgate.

Foto: Miguel Andrade
Foto: Miguel Andrade


Another stage of my volunteering in this organization comes to an end, and I leave feeling even more fulfilled. I had the opportunity to participate in and coordinate the patrols of the “Save a Seabird” Campaign, to meet volunteers from various parts of the world motivated by the same cause, and to dedicate myself to awareness-raising actions with the people of Madeira, so that they can understand and collaborate in reducing the impacts of light pollution on the seabirds of our island.

I carry with me enormous personal growth and a deeper understanding of the initiatives and policies that seek to mitigate this issue beyond Portugal’s borders. This direct contact with conservation reinforced my sense of responsibility as a citizen and biologist, showing me the true impact that each action can have on protecting the most vulnerable species.

It was a pleasure to collaborate once again with the SPEA Madeira team, within the scope of the LIFE Natura@night project. In an increasingly illuminated world, protecting natural darkness has become essential to securing the future of the species that depend on it. I hope that more and more people join this cause, as even small community efforts have a huge impact on the survival of these birds.

I leave this experience with the certainty that I will continue contributing to nature conservation, whether here or beyond borders. And, who knows, perhaps next year they will count on me again in the rescue campaigns.

Desafios noturnos

 Freira-da-Madeira (Pterodroma madeira) é uma ave marinha endémica cuja única área de nidificação se encontra nas montanhas interiores, a altitudes superiores a 1.600 metros. Esta espécie, considerada extinta até ao final da década de 1960, conta atualmente com uma população estimada de 140 indivíduos adultos.

Na última semana de setembro e na primeira de outubro, foi realizada uma campanha de conservação em três zonas do sudeste da Madeira. Esta época coincide com o momento em que as crias deixam os ninhos pela primeira vez e se dirigem para o mar, onde passarão grande parte da sua vida. Quando isto acontece, a costa, iluminada pela atividade humana, torna-se uma área crítica, onde as aves, devido à poluição luminosa, podem desorientar-se e cair ao chão, ficando vulneráveis.

A campanha consistiu na realização diária de percursos noturnos por várias rotas pré-estabelecidas, com o objetivo de resgatar qualquer ave que pudesse ter sido afetada pela poluição luminosa.

Durante os 12 dias de trabalho, nenhuma ave foi encontrada, levando a duas possíveis interpretações:

  • A poluição luminosa poderá ter sido menor este ano, representando um menor risco para as aves.
  • O número de crias poderá ter diminuído.

Duas possibilidades que nos fazem reavaliar sobre o impacto da atividade humana no ambiente e nos seus habitantes.





ENGLISH VERSION

Night challenges

The Zino’s petrel (Pterodroma madeira) is an endemic marine bird whose only breeding area is located in the inside part of mountains above 1600 meters. This species, was belived extint until latest 1960, nowadays has an estimated population of 140 adults individuals.
During the last week of september and the first of october, a conservation campaign took place in three areas of southeastern Madeira. This period coincides with

The date chosen for the campaign was not random; it was selected because its the moment when the hatchlings leave the nest for the first time towards the sea, where they will spend most of their lives. When this happens, the coastline, illuminated by human activity, becomes a critical area where the birds, due to the light pollution, may become disoriented and fall to the ground, making them vulnerable.

The campign consisted in daily nocturnal walks along pre-established paths in ordeer to rescue any bird that might have been affected by light pollution.

During the 12 days of work, no bird was found, leading to two posible interpretations:

-          Light pollution might have decreased this year, resulting in a reducted risk for birds.

-          The number of chicks might have decreased.

Both interpretations may make us reconsider about the impact of human activities on the environment and its inhabitants.

 






sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Salve uma ave marinha: quando a noite pode salvar uma vida

 


Há uma forma simples de salvar uma vida marinha: olhar para baixo, enquanto a noite nos envolve.
Pode parecer um gesto mínimo, mas neste tempo de luzes sempre acesas, são precisamente os pequenos gestos que fazem a diferença.

Todos os anos, entre outubro e novembro, ao longo das costas da Madeira e de outras ilhas atlânticas, centenas de juvenis de aves marinhas deixam pela primeira vez o ninho onde cresceram no escuro, sob a rocha, e dirigem-se para o mar.
É o primeiro voo da vida. O salto para o mundo. Um rito de passagem programado pela natureza com precisão.

Mas a natureza não previu faróis de automóveis, luzes de portos ou resorts iluminados durante toda a noite.

As aves marinhas que dependem da luz da lua para se orientarem como as jovens cagarras ou os roque-de-castro ficam desorientadas pelas luzes artificiais, que ofuscam e confundem o seu sistema de navegação.
Confundem os reflexos do cimento com o reflexo do mar e caem ao chão.

Uma vez no solo, não conseguem levantar voo sozinhas: falta-lhes o espaço para descolar. Ficam presas. Invisíveis e vulneráveis.

É por isso que existe a campanha “Salve uma ave marinha”.

Desde 2009, durante estas semanas críticas, voluntários e cidadãos da Madeira saem todas as noites, com uma lanterna na mão e uma caixa ao lado, à procura de aves caídas a fase que a ornitologia chama de grounding.
Caminha-se por passeios, estacionamentos, praias e até pelas praças das vilas. Onde quer que as luzes atraiam os jovens no seu primeiro voo.

Quem encontra uma ave, recolhe-a com cuidado, coloca-a numa caixa ventilada e leva-a para um local seguro, nas condições ideais para a libertação.

Um gesto simples, repetido milhares de vezes ao longo dos anos, que já salvou dezenas de milhares de indivíduos e deu uma nova oportunidade a populações inteiras.

É uma ação científica. Ajuda comunidades inteiras de aves marinhas espécies longevas, que põem apenas um ovo por ano a terem um futuro.
É uma ação coletiva. Envolve universidades, autarquias, instituições científicas e também pessoas que regressam do trabalho.
É uma ação simbólica. Recorda-nos que proteger a biodiversidade pode ser um hábito diário.

Este ano, também participei nas patrulhas em várias localidades da ilha.
Foram salvos e anilhados 14 indivíduos de cagarra (Calonectris borealis), dos quais 10 continuam a ser monitorizados por GPS para estudar os seus deslocamentos pós-libertação.

Proteger a noite é proteger também estas aves: as verdadeiras habitantes da escuridão, guardiãs silenciosas dos nossos mares.

English version

Save a Seabird: when the night can save a lifeThere’s a simple way to save a marine life: look down, while the night surrounds you.

It may seem like a small gesture, but in a time of constantly lit coastlines, it’s the smallest actions that make the biggest difference.

Every year, between October and November, along the coasts of Madeira and other Atlantic islands, hundreds of young seabirds leave the nest where they grew up in darkness, under the rock, and head toward the sea.
It’s their first flight. Their leap into the world. A carefully designed rite of passage.

But nature didn’t plan for car headlights, harbor lights or seaside resorts lit up all night long.

Seabirds that depend on moonlight to orient themselves such as young shearwaters or storm-petrels are disoriented by artificial light, which dazzles and confuses their navigation system.
They mistake the glow of concrete for the reflection of the sea and fall to the ground.

Once grounded, they can’t take off on their own: they lack the space to launch. They stay trapped. Invisible and vulnerable.

That’s why the “Salve uma ave marinha” (Save a Seabird) campaign exists.

Since 2009, during these critical weeks, volunteers and residents on Madeira go out every evening, flashlight in hand and recovery box by their side, searching for fallen birds what ornithology calls the grounding phase.
They walk along sidewalks, parking lots, beaches, and even town squares everywhere the lights pull young birds off course during their first flight.

When someone finds one, they gently place it in a ventilated box and bring it to safety, in the best conditions for release.

A simple action, repeated thousands of times over the years, has saved tens of thousands of individuals and given entire populations a second chance.

 It’s a scientific action. It helps entire communities of long-lived seabirds species that lay just one egg a year secure their future.
 It’s a collective action. It involves universities, local councils, scientific institutions, and ordinary people on their way home from work.
It’s a symbolic action. It reminds us that protecting biodiversity can be a daily habit.


This year, I also took part, joining patrols in several areas of the island.
A total of 14 Cory’s shearwaters (Calonectris borealis) were rescued and ringed, 10 of which are still being monitored via GPS in the days following their release.


Valeria Basciu


O Halloween já passou, mas os fantasmas do mar continuam vivos

 


O Halloween já ficou para trás. As abóboras foram apagadas, as máscaras voltaram para as gavetas, e com elas as histórias de espíritos e aparições.

Mas, para quem vive perto do mar, a atmosfera de mistério nunca desaparece por completo.

Há presenças que se movem no escuro, enchendo a noite de chamamentos inquietantes e fascinantes.
Não são fantasmas, mas criaturas reais: aves marinhas que escolhem as horas do crepúsculo ou da noite para momentos cruciais da sua vida, habitantes antigos do oceano, mestres do vento e do silêncio.

Entre a Sardenha e a Madeira estendem-se milhares de quilómetros de oceano e profundas diferenças geográficas.
Mas quem escuta a noite numa falésia sarda ou nas Ilhas Desertas poderá ouvir ecos semelhantes: asas que regressam do mar, sons que ligam o Mediterrâneo ao Atlântico numa linguagem antiga e universal.

Na Sardenha, a protagonista é a Cagarra do Mediterrâneo (Calonectris diomedea), enquanto na Madeira voa a sua “irmã atlântica”, a Calonectris borealis.
Tal como a espécie mediterrânica, põe apenas um ovo por ano: um investimento enorme, que explica a sua vulnerabilidade às ameaças humanas.

Duas espécies tão próximas que parecem ser a mesma, separadas apenas por mares e ventos.

Também entre as aves-de-tempestade o elo entre Sardenha e Madeira continua.
No Mediterrâneo sopra a Hydrobates pelagicus melitensis, que pesa menos de 30 gramas, mas percorre milhares de quilómetros entre o alto mar e as costas rochosas.
É uma das menores aves marinhas do mundo, e o seu cheiro característico tem uma função biológica importante: ajuda as crias a reconhecerem os progenitores quando regressam ao ninho.

No Atlântico voa o seu parente Hydrobates castro, igualmente discreto, que partilha a mesma estratégia reprodutiva: nidifica no interior de cavidades profundas, muitas vezes a mais de um metro da entrada, onde a temperatura se mantém estável mesmo no verão.
Ambas as espécies preferem a noite, ambas permanecem invisíveis ao olhar humano e por isso parecem quase criaturas de lenda.

E depois há ela, a Alma-negra (Bulweria bulwerii), que na Madeira acrescenta ao quadro uma nota de mistério ainda maior.
É uma das poucas aves procelariiformes que se move com um bater de asas contínuo, em vez de depender apenas das correntes de ar, como fazem as cagarras.
Os seus olhos escondem ainda uma curiosidade: possuem um revestimento pigmentado que reduz os reflexos da lua, melhorando a visão ao crepúsculo.

O nome parece saído de um conto gótico, e no entanto o seu canto, em vez de assustar, embala.
Nas noites das Desertas, a sua voz acompanhava os momentos de maior silêncio — um som suave, quase como a respiração do mar.
A Alma-negra vive imersa na escuridão, longe de tudo, invisível, mas presente.
É a alma secreta do oceano, a expressão perfeita de uma vida que prefere ocultar-se, mas que se revela com toda a sua força quando o sol se põe.

Há um fio que une todos estes seres, desde as cagarras do Mediterrâneo até às do Atlântico, das Hydrobates às Alma-Negra: o amor pela noite.
A escuridão não é ausência de vida, mas proteção.
As trevas geram um espaço de segurança e liberdade.

Mas hoje, essa escuridão está em perigo.

As luzes artificiais que iluminam as costas e os portos desorientam estas aves, atraindo-as para longe do mar e colocando em risco a sua sobrevivência.
Em algumas ilhas do Atlântico, incluindo a Madeira, todos os anos centenas de jovens cagarras precisam de ser resgatadas do chão e devolvidas ao mar, depois de caírem por causa dos faróis, estradas ou zonas turísticas.

Proteger a noite é proteger também estas aves: as verdadeiras habitantes da escuridão, as guardiãs silenciosas dos nossos mares.
Escutá-las é como sentir um suspiro profundo partilhado entre duas ilhas distantes, dois mundos irmãos.
E descobrir que, na escuridão onde quer que ela esteja não há medo, mas apenas maravilha.

English version 

Halloween is already behind us. The pumpkins are out, the masks are back in drawers, and with them all the tales of spirits and apparitions.
Yet, for those who live close to the sea, the feeling of mystery never quite disappears.

There are presences that move in the dark, filling the night with haunting and fascinating calls.
They’re not ghosts, but real creatures: seabirds that choose twilight or night hours for the most delicate moments of their lives, ancient inhabitants of the ocean, masters of silence and wind.

Thousands of kilometers and deep geographical differences separate Sardinia from Madeira.
Still, anyone listening from a cliff in the Sulcis or on Desertas Island might catch similar echoes: wings returning from the sea, voices that tie the Mediterranean and the Atlantic together in an ancient, universal language.

In Sardinia, the protagonist is the Scopoli’s shearwater (Calonectris diomedea), while in Madeira its “Atlantic sister”, Calonectris borealis, takes its place.
Like its Mediterranean counterpart, it lays only one egg per year: a huge investment that makes the species vulnerable to any external threat.

Two species so close they could almost be the same, divided only by seas and winds.

The bond continues even among storm-petrels.
In the Mediterranean flies Hydrobates pelagicus melitensis, weighing less than 30 grams, yet capable of traveling thousands of kilometers between open sea and rocky nesting sites.
It’s one of the smallest seabirds in the world, and its distinct smell plays an important biological role: it allows chicks to recognize their parents when they return to the nest.

Across the Atlantic flies its relative Hydrobates castro, equally discreet, sharing the same reproductive strategy: it nests deep in rock cavities, often more than a meter into the ground, where the temperature stays stable even in summer.
Both species favor dark hours and remain hidden from human sight which gives them an aura of legend.

And then there’s Bulwer’s petrel (Bulweria bulwerii), the “Alma Negra”, which adds a further note of mystery to Madeira’s skies.
It’s one of the few petrel species with a continuous wingbeat instead of gliding on air currents like shearwaters.
Its eyes also hide an uncommon feature: a pigmented film that reduces moonlight reflection, improving vision during dusk and night flights.

Its name sounds like it came from a gothic tale, but its call soothes rather than frightens.
On the Desertas islands, its voice gently broke the silence a soft sound, almost like the ocean’s breath.
Bulwer’s petrel lives fully in the shadows, far from everything, invisible yet ever-present.
It is the hidden soul of the ocean, the perfect embodiment of a life that prefers to remain out of sight, but reveals itself in full force when the sun goes down.

There is a thread connecting all these beings, from Mediterranean shearwaters to Atlantic ones, from storm-petrels to Bulwer’s petrel: a bond with the night.
Darkness is not the absence of life, but protection.
It creates a space of safety and freedom.

Today, though, that darkness is at risk.

Artificial lights along coasts and harbors disorient these birds, luring them away from the sea and putting their survival at stake.
On several Atlantic islands, including Madeira, hundreds of young shearwaters need to be rescued from the ground every year, having fallen after being drawn toward car headlights or tourist harbor lights.

Protecting the night means protecting them too: the true inhabitants of darkness, the silent guardians of our seas.
Listening to them is like sensing a long, shared breath between two distant islands, two sibling worlds.
And discovering that in the dark, wherever it unfolds, there is no fear, only wonder.

Uma experiência de investigação e conservação no coração do Atlântico

 


No final de setembro tive a oportunidade de participar numa campanha de monitorização e anilhagem de aves marinhas nas Ilhas Desertas, um pequeno arquipélago situado a cerca de 22 milhas a sudeste do Funchal.

Durante cinco dias vivi num dos ambientes mais isolados e intactos do Atlântico: um fragmento de mundo onde o tempo parece abrandar e o vento é uma presença constante.

A base operacional localiza-se na baía da Doca, na ilha da Deserta Grande. A estação, construída em 2005 para substituir o antigo refúgio de 1986, é hoje o coração da reserva natural.
Ali vivem em regime de rotação os vigilantes da natureza do Parque Natural da Madeira, que permanecem na ilha durante várias semanas, acolhendo ocasionalmente pequenos grupos de investigadores ou voluntários.

O edifício é simples, mas perfeitamente adaptado ao contexto: a energia provém de painéis solares e de um pequeno gerador, enquanto a água doce é recolhida numa cisterna pluvial. Os espaços são reduzidos uma cozinha, uma área comum, alguns quartos e um armazém, mas tudo funciona graças a uma logística precisa e a um forte espírito de colaboração.
À noite, o vento constante e o chamamento das aves marinhas substituem o silêncio: um concerto natural que acompanha todas as atividades.


Ilhéu Chão, Deserta Grande e Bugio formaram-se há cerca de 3,5 milhões de anos, na sequência de intensas erupções submarinas. As ilhas estiveram outrora unidas, mas a erosão marinha e os movimentos tectónicos acabaram por separá-las, moldando uma paisagem de falésias basálticas que atingem até 480 metros de altura.
A composição geológica é dominada por basaltos alcalinos, tufos e escórias vulcânicas, alternando em camadas vermelhas e escuras devido à oxidação do ferro. Vistas do mar, as ilhas assemelham-se a enormes bastiões coloridos que se erguem verticalmente da água.



O clima é temperado oceânico e seco, com menos de 300 mm de precipitação anual e ventos dominantes de nordeste. A temperatura da água varia entre 17 °C no inverno e 24 °C no verão, parâmetros que influenciam os ciclos reprodutivos das aves marinhas e a produtividade do plâncton nas águas circundantes.

Apesar da aridez, as Desertas albergam uma flora relicta de grande interesse biogeográfico. Foram identificadas mais de 200 espécies vasculares, muitas delas endémicas, ou seja, exclusivas destas ilhas. Entre elas destacam-se Sinapidendron sempervivifolium, Monizia edulis e Chamaemeles coriacea, plantas que desenvolveram adaptações extremas à seca e à salinidade.
Nas zonas mais expostas crescem líquenes do género Rocella, outrora utilizados na produção do pigmento “oricelo”, enquanto nas fendas mais húmidas sobrevivem fetos delicados como Adiantum capillus-veneris.



As Desertas são uma das áreas mais importantes do Atlântico para a nidificação de aves marinhas. As falésias e as plataformas basálticas oferecem refúgios naturais a milhares de casais reprodutores.
A Cagarra (Calonectris borealis) nidifica em centenas de casais, escavando tocas no solo ou entre os detritos rochosos. É uma espécie migratória que passa o inverno entre as costas do Brasil e da África do Sul.
A Alma-negra (Bulweria bulwerii) encontra aqui uma das maiores colónias do mundo, estimada em mais de 10 000 casais.
A Freira-do-Bugio (Pterodroma feae), espécie endémica e em perigo crítico, está confinada à ilha do Bugio, com uma população de cerca de 150 a 200 casais monitorizados anualmente segundo protocolos rigorosos de conservação.
O Roque-de-Castro (Hydrobates castro) é um pequeno procelarídeo noturno, reconhecível pelo seu chamamento profundo e rítmico que preenche o ar após o pôr-do-sol.



Para além das aves, vive aqui a foca-monge do Mediterrâneo (Monachus monachus), uma das espécies de mamíferos mais raras do mundo.
A colónia das Desertas, com cerca de 30 indivíduos, representa atualmente o núcleo mais estável da espécie um resultado obtido graças a décadas de proteção total e à restrição de acesso a várias zonas costeiras.

Os invertebrados também merecem destaque: foram registadas mais de 150 espécies endémicas, incluindo aranhas e escaravelhos únicos, indicadores do isolamento evolutivo do arquipélago.

Durante séculos, contudo, as ilhas sofreram a pressão de espécies introduzidas pelo homem. Cabras e roedores continuam presentes em algumas zonas, representando uma ameaça persistente para a vegetação nativa e para as aves nidificantes.



O trabalho diário centra-se na monitorização dos ninhos e na anilhagem científica de adultos e juvenis.
As aves são capturadas manualmente e colocadas durante poucos minutos em sacos de tecido respirável, para minimizar o stress.




Registam-se os principais parâmetros biométricos peso, envergadura, comprimento do tarso e do bico e aplica-se uma anilha metálica identificativa na perna. Este sistema permite acompanhar ao longo do tempo os movimentos, a sobrevivência e a fidelidade ao local de nidificação.




Um dos momentos mais marcantes foi o reencontro com uma Cagarra que ainda mantinha um GPS funcional, aplicado quase dois meses antes. Encontrar um dispositivo intacto é raro, pois pode soltar-se devido ao movimento da ave ou às condições atmosféricas.



Durante as inspeções aos ninhos é comum encontrar crias mortas, sobretudo nos locais mais expostos ou após noites de chuva e vento.
A mortalidade juvenil nestas colónias pode ultrapassar os 25% anuais, conforme indicado por estudos de longo prazo nas Selvagens e nos Açores. Trata-se de um fenómeno natural que contribui para o equilíbrio populacional: apenas os indivíduos mais resistentes sobrevivem até à idade adulta.



As Ilhas Desertas são atualmente uma Reserva Natural Integral, Reserva Biogenética do Conselho da Europa, Zona de Proteção Especial (ZPE) e parte da Rede Natura 2000.
O acesso é estritamente controlado: apenas investigadores, vigilantes ou voluntários autorizados podem permanecer na Deserta Grande. As visitas turísticas diárias, limitadas a um pequeno troço costeiro, decorrem sempre sob supervisão.

Para mim, estes dias nas Desertas foram um encontro direto com a ciência no seu estado mais puro.


English version

At the end of September, I had the opportunity to take part in a seabird monitoring and ringing campaign in the Desertas Islands, a small archipelago located about 22 nautical miles southeast of Funchal.

For five days, I lived in one of the most isolated and untouched environments in the Atlantic: a fragment of the world where time seems to slow down, and the wind is a constant presence.

The operations base is located in Doca Bay, on Deserta Grande Island. The station, built in 2005 to replace the old 1986 shelter, is now the heart of the nature reserve.
Here, park wardens from the Madeira Natural Park live on rotating shifts, staying on the island for several weeks at a time, occasionally hosting small groups of researchers or volunteers.

The building is simple, but perfectly adapted to its surroundings: energy comes from solar panels and a small generator, while fresh water is collected in a rain-fed cistern.
The spaces are basic: a kitchen, a common area, a few bedrooms, and a storage room, but everything works thanks to careful logistics and a strong spirit of cooperation.
At night, the ever-present wind and the calls of seabirds replace silence: a natural symphony that accompanies every activity.

Ilhéu Chão, Deserta Grande, and Bugio were formed around 3.5 million years ago, as a result of intense submarine volcanic eruptions.
The islands were once connected, but marine erosion and tectonic movements eventually separated them, shaping a dramatic landscape of basalt cliffs that rise up to 480 meters above sea level.

The geological composition is dominated by alkaline basalts, tuffs, and volcanic scoria, which alternate in red and dark layers due to iron oxidation.
Viewed from the sea, the islands appear as massive, colorful bastions rising vertically from the water.

The climate is dry, temperate oceanic, with less than 300 mm of annual rainfall and prevailing northeast winds.
Sea temperature ranges from 17°C in winter to 24°C in summer parameters that influence the breeding cycles of seabirds and the productivity of plankton in surrounding waters.

Despite the aridity, the Desertas host a relict flora of great biogeographical value.
More than 200 vascular plant species have been recorded, many of them endemic, found nowhere else on Earth. Notable examples include Sinapidendron sempervivifolium, Monizia edulis, and Chamaemeles coriacea, plants that have developed extreme adaptations to drought and salinity.
In the most exposed areas, lichens of the genus Roccella grow, once used to produce the dye “orchil”, while in damp crevices, delicate ferns like Adiantum capillus-veneris survive.

The Desertas are among the most important seabird breeding areas in the Atlantic.
The cliffs and basalt platforms offer natural shelters to thousands of breeding pairs.

  • The Cory’s shearwater (Calonectris borealis) nests in hundreds of pairs, digging burrows in the soil or between rock debris. It is a migratory species, spending winter along the coasts of Brazil and South Africa.

  • The Bulwer’s petrel (Bulweria bulwerii) finds here one of the world’s largest colonies, estimated at over 10,000 pairs.

  • The Desertas petrel (Pterodroma feae), an endemic and critically endangered species, is confined to Bugio Island, with a population of about 150–200 breeding pairs, monitored annually through rigorous conservation protocols.

  • The Madeiran storm-petrel (Hydrobates castro) is a small, nocturnal procellariiform recognizable by its deep, rhythmic call that fills the air after sunset.

Alongside seabirds, the Mediterranean monk seal (Monachus monachus), one of the rarest marine mammals in the world,  also inhabits these islands.
The Desertas colony, with around 30 individuals, is currently the most stable population of the species  a result of decades of strict protection and limited access to coastal areas.

Invertebrates also deserve mention: over 150 endemic species have been recorded here, including unique spiders and beetles, clear indicators of the archipelago’s evolutionary isolation.

For centuries, however, the islands suffered from the pressure of species introduced by humans.
Goats and rodents still persist in some areas, posing a constant threat to native vegetation and breeding seabirds.

The daily work focuses on nest monitoring and scientific ringing of adults and juveniles.
Birds are captured by hand and placed for a few minutes in breathable cloth bags to minimize stress.
Key biometric data are recorded weight, wingspan, tarsus and bill length and a metal identification ring is attached to one leg. This system makes it possible to monitor movements, survival rates, and nesting site fidelity over time.

One of the most remarkable moments was finding a shearwater still carrying a functional GPS device, attached nearly two months earlier.
Recovering a tag in good condition is rare, as it may fall off due to the bird’s movements or weather conditions.

During nest inspections, it is not uncommon to find dead chicks, especially in exposed sites or after nights of rain and strong wind.
Juvenile mortality in these colonies can exceed 25% per year, as shown by long-term studies in the Selvagens and the Azores.
This is a natural phenomenon that helps maintain population balance: only the strongest individuals survive to adulthood.

The Desertas Islands are currently a Strict Nature Reserve, a Biogenetic Reserve of the Council of Europe, a Special Protection Area (SPA), and part of the Natura 2000 network.
Access is strictly controlled: only researchers, wardens, or authorized volunteers may stay on Deserta Grande.
Day visitors are allowed only along a small section of the coast and always under supervision.

For me, these days on the Desertas were a direct encounter with science in its purest form.

Valeria Basciu